Não adianta olhar para o lado, animar-se com a semana de feriados que se avizinha, lastimar que João Cachoeira seja o senhor das crises, espernear contra a estrela do PT plantada nos jardins dos palácios de Brasília. Deletério berrar contra juros escorchantes, invocar Lênin, xingar Bush, atrelar-se a Hugo Chávez e iludir-se com as quotas para negros nas universidades.
A Rocinha não é carioca nem fluminense - é brasileira. Esse pedacinho de roça na periferia da antiga Capital que subiu até a aristocrática Gávea (ou dela desceu em direção à praia) não é apenas a favela-símbolo da Cidade Maravilhosa. É o show-room da falência do Estado, terra de ninguém da República, mostruário da imoralidade, vitrina da degradação social, exibição permanente da incompetência política e da corrupção entranhada.
A Rocinha é o mais famoso ferro-velho de leis, Museu de Cera de magistrados venais, depósito de códigos obsoletos, mausoléu constitucional. Não é uma ilha, já é um continente. O narcotráfico não teria assumido proporções tão gigantescas se não existissem em nosso país, há tantas décadas, esses roçados cultivados apenas pela contravenção e pelos caudilhos.
A Rocinha é a antítese do Brasil roceiro. Já fomos bucólicos, serenos, lúcidos, conciliadores. Ontem seresteiros, hoje funkeiros. A violência saiu das sombras, consagrada pelas foices da reforma agrária na marra, pelas flechadas dos índios nos garimpeiros, pelas balas que pareciam perdidas mas são certeiras. Essa transformação precisa ser plenamente assumida.
A sociedade brasileira comporta-se como sonâmbula, entregue às rixas paroquiais, tomada pela insensatez, palavras de ordem vazias, confundida por idiotas letrados que jamais administraram suas próprias casas, incapaz de perceber que a Rocinha, ao invés de dividir o Rio, espraia-se cimentada pelo país afora.
Engalfinhados na discussão sobre o envio dos tanques do Exército para subir as ladeiras da favela, esquecemos do ''bonde'', a caravana de sete ônibus com 500 admiradores do bandido Lulu que foram ao seu enterro na quinta-feira. Não são bandidos, mas servem aos bandidos - no caso o herdeiro Zarur que se opõe às pretensões do facínora Dudu com outros 500 inflamados súditos, prontos a fechar lojas, escolas, agredir repórteres e impor a sua lei.
Os blindados federais jamais impedirão esses ''bondes''. Quando se fala em intervenção do poder central, o que se pretende é lembrar que na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, existem pelo menos dois - o das Cidades e o da Integração Nacional - que deveriam estar fazendo alguma coisa há pelo menos 10 dias.
O casal Garotinho não é solução nem tem soluções. Os consortes, para o nosso azar, são o problema, frutos da demagogia e do populismo que só agravaram a exclusão e a ignorância, mães de todas as favelas. Egressos do PCB, do PT, do PSB e agora no PMDB, representam a incapacidade de certas esquerdas para encarar a realidade.
Cemitério de ideologias, religiões e utopias, a Rocinha é, antes de tudo, um monumento ao fracasso dos governantes. Salvo a experiência do recolhimento do lixo nos anos 70 e o programa Favela-Bairro - todos insignificantes -, a Rocinha permanece como desafio à famosa criatividade brasileira. Nunca foi bandeira de projeto de grosso calibre, sempre inferiorizada diante de sonhos faraônicos para privilegiar o transporte individual. Agora, vingou-se.
Enganam-se redondamente os geólogos, ao afirmar que o Brasil não tem vulcões em atividade; temos muitas rocinhas de magma incandescente prestes a derramar-se morro abaixo.
Integrada a uma cidade que não a aceita, disfarçada por seus modismos, a Rocinha tomou conta do Rio e impôs-se à agenda nacional. Impossível esquecê-la: o risco-país pode ser atenuado com a safra de soja ou as reuniões do Copom mas as realidades da Rocinha têm todas as condições para agravá-lo.