O Brasil quer deixar de ser apenas o país do samba e do futebol e ser internacionalmente conhecido como o país das flores. Para isso, centros de pesquisa no Nordeste começam a aplicar novas tecnologias para aprimorar a qualidade de exuberantes plantas ornamentais, buscando crescimento mais rápido e durabilidade maior para estimular exportações. Com as pesquisas, a expectativa é de que a venda das flores tropicais no exterior passe dos atuais US$ 13 milhões para US$ 70 milhões, em 2003.
''Há grandes perspectivas para a expansão da produção de flores tropicais e a pesquisa voltada para o aumento da produtividade e qualidade dessas flores é fundamental'', afirma o engenheiro agrônomo Narciso Bezerra de Freitas, da delegacia do Ministério da Agricultura em Pernambuco.
A prioridade da lista são as espécies Ananas lucidus e Ananas porteanus, primas do abacaxi e da família das bromélias. Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza, estão aprimorando a técnica da micropropagação in vitro, método em que a planta é cultivada nos primeiros meses em laboratório, o que a torna mais resistente aos micróbios do solo.
''Filhotes'' - O primeiro passo é colher a planta com flores mais vistosas e que apresentou melhor desenvolvimento. Dela serão extraídos pequenos pedaços, que vão dar origem a novos indivíduos, num processo de clonagem. Cada planta rende até 500 filhotes, todos iguais à mãe. Essa é uma das vantagens da técnica, pois a homogeneidade das plantas permite seu manejo uniforme.
Os pedaços extraídos são inseridos em um recipiente com gel nutritivo e hormônios. ''O gel fornece tudo o que a planta precisa, cumprindo o papel do solo, e os hormônios a fazem crescer mais rápido'', diz a bióloga Diva Correia, que coordena a pesquisa na Embrapa.
No laboratório, as plantas ficam em ambiente com luminosidade e temperatura controladas. Recebem sol 12 horas por dia e a temperatura nunca ultrapassa os 28° Celsius. Após seis ou oito meses, as mudas, com cerca de quatro centímetros, estão prontas e são levada para a estufa cercada de telas, para impedir o contato com insetos. Nesta espécie de berçário, ficam dois meses. Quase um ano após a clonagem, as plantas, finalmente, são levadas para as plantações, onde, no caso da Ananas lucidus, chegam a 80 centímetros.
Paracuru, no litoral cearense, é o município que concentra a produção dessa espécie, exportada para Estados Unidos, Holanda e Alemanha. ''Compram de nós porque a planta é de região tropical. Nos países temperados, seu cultivo demanda muito gasto com energia para manter as condições ideais de cultivo'', diz o botânico Roberto Esteves, do Departamento de Botânica da Uerj. O cultivo de Ananas porteanus ainda não tem expressão no mercado internacional, mas com as pesquisas os cientistas esperam que a flor ganhe projeção.
A Embrapa já se prepara para pesquisar outras flores tropicais: Alpinia purpurata, conhecida como panamá vermelho e rosa; Tapeinochilus ananaceae, cujo nome popular é flor-de-lata; Heliconia psittacorum, vulgarmente conhecida como falso pássaro-do-paraíso; Calathea burle-marxii, apelidada de cristal; e Musa coccinea, da família da bananeira. São as mais cultivadas em Pernambuco, estado que lidera a produção de flores tropicais no Nordeste.
Mais do que a origem tropical, essas plantas partilham duas outras características: são ornamentais e pertencem ao grupo das monocotiledôneas - não crescem muito, no máximo, dois metros e duram mais que as flores tradicionais, como a rosa. ''Essas plantas são exóticas, têm uma beleza e um colorido inigualáveis e, por isso, são muito atraentes'', diz o fisiologista vegetal Ricardo Vieira, chefe do Departamento de Botânica da UFRJ. ''Além disso, ao contrário da rosa, que perde as pétalas em poucos dias, elas resistem até 20 dias depois de cortadas, o que as torna ideais para a exportação.''