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Mais um milagre da multiplicação
Centenas de pessoas em comunidade carente fazem fila por seis toneladas de peixe para almoço da Sexta-Feira da Paixão
Ana Paula Verly
[15/ABR/2006]
O preço pela ''hora da morte'' não impediu este ano o guardador de carros Luiz Carlos Martins de ter peixe na mesa no feriado de Páscoa. Logo cedo, vizinhos deram a dica que garantiu o dia de folga e a certeza da tradicional refeição. Levando sacolas plásticas, Luiz foi para a Praça dos Pescadores, no Caju, onde foram distribuídas ontem três toneladas de pescado.
- Não como carne em dia santo. Se não fosse de graça, só ia ter arroz e feijão no almoço e na janta. Ano passado, trabalhei muito e consegui comprar numa promoção - contou Luiz Carlos, que levou para a mulher e os quatro filhos três quilos, doados pela Associação dos Pregoeiros Profissionais do Estado do Rio (Apaerj).
Além de proporcionar o consumo pela população carente no feriado, a distribuição, promovida pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, teve como objetivo divulgar a intenção do Governo Federal de instalar um terminal pesqueiro público no bairro.
- Queremos estimular a ingestão de peixe - disse Jayme Ferreira Filho, chefe do escritório da Secretaria no Rio.
A oportunidade tirou da cama a estudante Ingrid da Silva Félix, 11. Moradora da comunidade Nossa Senhora da Penha, ela só come peixe uma vez por mês.
- Na minha rua todo mundo ficou feliz. Minha mãe me acordou para eu também vir pegar.
Foram distribuídos peixes de água salgada e Curvinota, Castanha, Tira-e-Vira e Pargo, que costumam ser vendidos a R$ 5 o quilo durante a Semana Santa. Impróprios para moquecas e assados, entre outros pratos sofisticados - feitos com peixes nobres que chegam a custar R$ 28 o quilo -, a opção era colocá-los na frigideira.
-Vou levar para a minha mulher fritar - comemorou o ajudante de ambulância Manuel dos Santos, 65, revelando preferência pelo alimento.
- Gosto de peixe porque é uma comida que dá sustância e saúde. Não é como a carne, que deixa a gente com a barriga pesada - comparou.
Na frente dele, o motorista Vítor Manuel Caseira, 51, apontava outro benefício:
- É bom para a cabeça.
A quantidade distribuída a cada pessoa - quatro quilos - não fez a alegria somente dos humanos. Na casa do segurança aposentado Aílton Fernandes, 52, cinco gatos receberam um banquete.
- Vou dar tudo para eles. A prioridade é dos animais. Eu e minha mulher vamos comer o bacalhau que sobrou do Natal passado - disse Aílton, que também cria cães e pássaros.
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