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Superficialidade às claras


Rodrigo Fonseca

Falar mal de um filme de Almodóvar implica evocar duas palavrinhas da garganta furiosa do politicamente correto: homofobia e recalque. Essas são as duas melhores armaduras que a pós-modernidade cunhou para proteger o diretor, até agora seu porta-voz mais célebre. Mas sem escudos para resguardá-lo, o que sobra de Má educação senão uma massa rala de sensacionalismo barato? Com a desculpa de ter crescido com o gosto amargo da mordaça franquista nos lábios, o espanhol encontrou um belo álibi na necessidade de expurgar o silêncio do passado a gritos. Com ele nas mãos, o cineasta habilidosamente mascara sua fragilidade narrativa em um amontoado de clichês.

O filme mostra apenas o quanto é rala sua dramaturgia. Seu thriller gay quer tanto chocar que mal consegue dar vazão à prometida sensualidade que, segundo sugere o trailer, reside no mundo noir ali retratado. Ele sequer aproveita a tão comentada seqüência de Gael García Bernal travestido de popuzuda, desperdiçando o único bom momento do ator em cena. Aliás, apontar o mexicano - que aqui deixa aflorar todas as suas caretas e trejeitos canastras - como a grande promessa entre os atores latino-americanos é fazer vista grossa para bons nomes como o uruguaio Daniel Hendler de O abraço partido, o também mexicano Diego Luna e o brasileiro Selton Mello. Longe de Carne trêmula, o longa é inútil provocação.


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[12/NOV/2004]


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