Claro, ninguém vence uma eleição apenas porque é bem-vestido ou considerado elegante. Tem um certo peso o fato de o candidato se apresentar arrumado, até impressiona acompanhar o esforço de quem procura manter uma aparência condizente com seus objetivos. Isto é, vencer uma eleição. Pode não ser o argumento único, trocar suas vestes anônimas por etiquetas famosas - e alardear que elas enfeitam o avesso de suas roupas. Mas que chama a atenção de quem pouco entende de propostas e programas de governo, é inegável.
O eleitor pode desejar um representante que não faça má figura quando sair pelo mundo. Desde que não espere que crises econômicas sejam resolvidas exibindo a marca da gravata para os credores. Ou que vestir um terno Dior, assinado por Hedi Slimane, ajude a administrar uma revolta de presídio. O poder da moda não chega a tanto. Ela basta para a primeira impressão, define um grupo de consumo, quase antecipa as reações de quem usa determinado estilo.
Além deste cartão de visitas, há muito pouco a esperar de um belo terno ou uma camisa impecável, no campo político. Principalmente porque há a manipulação do estilo pessoal, visando à tal boa impressão. Há quem diga que este é um uso perverso da moda, que vira um figurino, transformando lobos em cordeiros e vice-versa. Para o eleitorado brasileiro, escaldado por personagens que colecionavam gravatas Hermès e relógios Breitling, há um efeito contrário, uma reação de desconfiança contra o político muito à la mode. Já há muitas décadas, outro político, o então presidente Jânio Quadros, provocava risos com sua mania de substituir a formalidade do terno e gravata pelo conjunto safári.
Não foi o caso de Lula, eleito presidente. O seu visual impecável não impediu que fosse eleito, nem despertou as desconfianças. E olhem que esta foi a quarta vez que o ex-metalúrgico concorreu nas urnas. Suas idéias melhoraram? Pioraram os oponentes? O eleitorado resolveu dar uma chance? Pode ter sido uma escolha legítima pelo plano de governo, por que não?
Para quem a vitória de Lula foi provocada em parte por sua atual maneira de vestir, vale lembrar a evolução do elegante nestes anos de tentativas. Ele começou de camisetas, camisas simples, barba revolta, identificado com seus companheiros de trabalho. Seria uma maioria de brasileiros, pelas estatísticas. Mas Lula perdeu sua primeira eleição, para governador de São Paulo. Eleito deputado federal, tímidos ternos já faziam parte do guarda-roupa, e ele se declarava ''desconfortável'' em uma cerimônia de instalação da Constituinte, vestindo um terno verde-claro e uma gravata marrom. Terá sido culpa desta cor de gravata a derrota em 1989?
Candidato pela segunda e terceira vez à Presidência da República, havia uma identificação maior com a classe média. Camisa social de mangas arregaçadas, de vez em quando, uma pólo. Adeus verdes e marrons. Talvez uma maneira de mostrar para uma elite que não havia radicalismo populista, este estilo mais informal, mas reconhecido como ''urbano'', ''casual'', nos termos da moda masculina, saía da faixa do ''brega'', do sem-criatividade.
Ainda não foi daquelas vezes, a tal classe média não se convenceu. Faltava um conjunto bem-acabado, que fosse descoberto o visual certo. E agora, com os ternos bem-cortados, cabelos e barba impecáveis e a pele tratada - há quem tenha reparado que ''ora veja, ele tem uma covinha linda no rosto'' - finalmente Lula sobe a rampa do Planalto.
Seria ingenuidade concluir que, apenas por se apresentar bem, tenha impressionado os grandes empresários, que também contribuíram para sua vitória com seus votos. O novo presidente sabe como se vestir para uma reunião formal, em qualquer lugar do mundo. A classe média também não se deixaria levar por uma barba bem-aparada. Em compensação, a classe de onde ele veio, o operariado, pode ter visto com bons olhos a transformação. Afinal, é um sinal de evolução dominar o próprio aspecto e mostrar que um rapaz pobre ao longo de alguns anos aprendeu a aparentar ser um senhor de cultura contemporânea, à vontade num mundo de ricos e elegantes. É uma espécie de esperança, de prova que é possível melhorar de vida, algo que os brasileiros estão precisando acreditar.
A moda é o elemento secundário desta vitória. Há que modernizar o estilo da educação, dar um acabamento na saúde e pensar nos complementos da economia, para produzir uma coleção de tendências positivas no tecido social. A própria moda, através da indústria têxtil e de confecções, merece uma atenção especial, por ser um setor que gera milhares de preciosos empregos.
Mas, só para tirar essa impressão de personagem de estilo, seria ótimo ver o presidente de camiseta e bermuda, em algum fim de semana de folga.