A trajetória de Lula é reconhecida por todos os segmentos da sociedade brasileira como admirável. Nosso novo presidente, ainda menino, viaja num pau-de-arara, do sertão de Pernambuco a São Paulo, acompanhando sua mãe em busca de novo destino. Na juventude, torna-se torneiro mecânico e operário, sendo que, em pouco tempo, passa a demonstrar aptidão para o exercício da liderança política, comprovada com a eleição para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
O impulso dado à redemocratização pelo novo sindicalismo, do qual Lula é um dos expoentes, faz com que a carreira sindical dê lugar à carreira política. É um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, agremiação que, em intervalo relativamente curto de tempo, se transforma no principal partido de esquerda do país. Elege-se deputado em 1986. Em 1989, concorre à Presidência da República, perdendo em apertada disputa no segundo turno.
Após mais duas tentativas fracassadas, embora sempre terminando como o segundo mais bem votado, faz, no ano de 2002, campanha brilhante e bem-sucedida. O que mudou? O que fez com que o candidato visto como vítima de um veto da maioria da população, por conta de sua origem humilde e socialização política de inspiração sindicalista e radical, conquistasse a confiança do eleitorado e construísse o consenso típico de vitórias majoritárias?
Comecemos com um pouco de análise política ortodoxa. Em competições majoritárias, isto é, aquelas em que a conquista da maioria absoluta dos votos válidos é necessária para a vitória, vence a disputa quem for capaz de adquirir o voto do eleitor localizado no centro do espectro ideológico. Nenhum candidato pode pretender ganhar as eleições se permanecer em uma das extremidades do espectro, à direita ou à esquerda.
De acordo com este raciocínio, a vitória de Lula pode ser explicada por dois motivos: um deslocamento do eleitorado para a esquerda do espectro e uma estratégia centrista dos vitoriosos. De fato, as duas coisas ocorreram nas eleições de ontem. Por um lado, o eleitorado vem de há muito tempo manifestando desejar mais emprego, mais distribuição de renda e, portanto, um governo mais ativo na promoção do desenvolvimento. Para esse eleitor, a inflação deixou de ser decisiva pelo simples fato de a estabilidade ter se tornado uma espécie de ''estado de natureza''.
Por outro lado, desde cedo na campanha, o PT firmou compromisso com os fundamentos da estabilidade econômica conquistada desde 1994. Não foi por outra razão que afirmou honrar as metas de superávit fiscal, estabelecidas mediante acordo com o FMI, e os contratos que regem a rentabilidade dos títulos da dívida pública. Por conseguinte, o movimento simultâneo do eleitorado, que se deslocou do centro para a esquerda, e do PT, que se moveu da esquerda para o centro, resultou na conquista por Lula do chamado ''eleitor mediano'', dando-lhe a vitória.
Uma questão pertinente consiste em saber se a vitória de Lula não passaria de uma tremenda aventura política, um mergulho na incerteza de um povo imaturo que não mede os riscos de sua opção eleitoral. Seria a experiência brasileira inteiramente nova, no sentido de um partido de esquerda e trabalhista promovendo inflexão ao centro como estratégia de campanha? Até que ponto a mudança de Lula e de seu partido é confiável? Um pouco de política comparada serve para dirimir a dúvida.
O deslocamento de um partido de origem socialista para o centro não é algo inédito na história das democracias de massa. Isto aconteceu nos anos 30 do século passado, quando os partidos trabalhistas e da socialdemocracia na Europa começam a ocupar os governos desses países. O ponto relevante aqui é que a confiança do eleitor somente foi conquistada quando os partidos sindicalistas e radicais de então abdicaram de seu caráter revolucionário, aceitando os fundamentos da sociedade capitalista, os direitos de propriedade e a estabilidade dos contratos.
Nesse sentido, a trajetória de Lula não tem nada de excepcional. Trata-se da trajetória típica da social-democracia, onde ela deu certo - firmando compromisso com o capital e estabelecendo acordos com diversos setores da sociedade, dando origem, em suma, aos chamados arranjos consociacionais e neocorporativos.
É bem verdade que parte substancial da elite econômica e formadores de opinião guardam sérias dúvidas sobre a confiabilidade da opção tomada pelo eleitor brasileiro. Em recente artigo, publicado no jornal Valor Econômico, a economista Eliana Cardoso expressa com clareza este ponto de vista, que se baseia em três pontos principais: 1) falta a Lula instrução; 2) falta credibilidade à sua recente reviravolta em assuntos financeiros e fiscais; 3) falta-lhe experiência em questões internacionais. Ainda segundo a economista, tais fragilidades engendrariam três tipos de risco: 1) o risco da insegurança econômica induzida por decisões inoportunas a quem falta experiência e vai estar sob pressões contraditórias; 2) o risco de abalos produzidos pela demanda social que sua eleição tornaria irrefreável; 3) o risco de uma crise que pode afugentar o capital e destruir em pouco tempo grande parte da riqueza nacional.
O argumento da falta de instrução deriva do viés do economista. O líder político não precisa de educação formal; deve, sim, possuir capacidade de coordenação, negociação e noção de timing. A questão da confiabilidade da recente reviravolta em assuntos financeiros e fiscais pode ser respondida observando as experiências do PT nos Estados e municípios onde governou. Em geral, o que vemos é o trato cuidadoso e competente com as finanças. Finalmente, o problema da inserção internacional.
Aqui, temos uma objeção mais delicada. De fato, as novas condições da economia não deixam dúvidas sobre a importância de uma boa equipe no front internacional e o PT deverá demonstrar desprendimento ao recorrer a economistas e técnicos conceituados no exterior para negociar melhores condições, tendo em vista a retomada do crescimento de nossa economia. Então, tudo dependerá do bom entendimento do novo governo com os excelentes quadros com os quais contamos no Brasil e no exterior. Generosidade nunca faltou a Lula, nem patriotismo a nossos economistas. Há motivos para estarmos também mais confiantes com relação a esta objeção.
O desafio é imenso, pois as dificuldades também o são. Contudo, onde se estabeleceu e promoveu crescimento com distribuição de renda, a socialdemocracia dependeu muito menos de boa doutrina do que de política, entendida em seu sentido mais essencial - liderança, negociação, espírito democrático e cooperação por parte de certos atores fundamentais, tais como empresários, banqueiros e formadores de opinião. Os três primeiros fatores estão assegurados pela trajetória de quem foi eleito depois de tantas tentativas. Quanto ao quarto e decisivo fator, cabe a nós demonstrar existir em boa conta.