Eleito deputado com enorme votação, ele não gostou da experiência no Congresso Nacional
A bordo de 652 mil votos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Assembléia Nacional Constituinte como o deputado federal mais votado da História do Brasil. No primeiro dia de fevereiro de 1987, aos 41 anos, além de terno e gravata novos, Lula estreava a chance de tornar realidade, por intermédio da carta magna, os anseios dos trabalhadores.
Apesar das expectativas surgidas em todas as bancadas, o deputado Lula teria um desempenho opaco. Enquanto o ex-líder sindical criticava os políticos e a política, seus eleitores se decepcionavam com uma atuação considerada opaca.
- Milhares de pessoas votaram em mim e estou aqui brigando pela Constituinte mais avançada possível. Este é o aspecto positivo. O negativo é que a estrutura de funcionamento do Congresso é arcaica, é feita para não funcionar com a rapidez necessária - avaliou, numa entrevista ao Jornal do Brasil, em 21 de fevereiro de 1987.
Além do ritmo moroso, Lula reclamava da superficialidade com que os problemas eram tratados, da burocracia e da falta de comprometimento da maioria dos deputados e senadores.
- Nunca imaginei que o nível fosse tão baixo. Nunca imaginei que a incapacidade fosse tanta. Incapacidade de diálogo, de articulação. Incapacidade política. Nunca imaginei que fosse tamanha a capacidade para negociatas e negócios sujos como os que a gente vê. Chega a dar nojo - atacou Lula em dezembro daquele ano.
Antes de assumir a cadeira, o metalúrgico defendia propostas de cunho reformista. A ''Constituição avançada'' de Lula incluía autonomia sindical, reforma agrária, direito irrestrito de greve e redução da jornada de trabalho. Propunha a formação de frentes parlamentares com deputados de outros partidos e se comprometia a ir às portas das fábricas e às estações de trem para contar aos trabalhadores o que se passava no Congresso - casa que apelidou de ''vendilhão de ilusões''.
O principal nome do PT acreditava que nada poderia ser mais difícil do que dirigir um sindicato, um partido ou enfrentar uma campanha eleitoral. Enganou-se. Logo no início dos trabalhos, deu-se conta de que havia projetos de sobra em favor dos trabalhadores. Em vez de apresentar outros, preferiu tentar desengavetar os antigos e desistiu de apresentar novos.
À medida que descrença e desilusão avançavam na trajetória do Lula deputado, as críticas se multiplicaram. ''Apagado'' era um dos termos mais leves usados para definir sua atuação. O PT pensou em abandonar a Constituinte.
- Eu fui eleito para fazer valer alguns interesses dos que nunca tiveram nada neste país e esta Constituição que se quer fazer parece não querer isso. Garanto que não vou assiná-la nem legitimá-la - afirmou no fim de 1987.
Assinada pelo presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães, a Constituição aprovada em julho de 1988, entretanto, traz impresso o nome de Lula, listado em ordem alfabética, ao lado dos mais de 500 colegas do Legislativo.
A frustração com a Constituinte foi tanta que, seis anos depois, Lula afirmou que a sociedade não deveria confiar nos políticos, porque haveria ''pelo menos 300 picaretas no Congresso''. O fato causou bastante polêmica à época e até hoje costuma trazer inconvenientes ao futuro presidente. A declaração inspirou o rap Luiz Inácio (300 picaretas), do grupo Paralamas do Sucesso, e estimulou discussões sobre a liberdade de expressão quando a banda foi proibida de executar a canção em um de seus shows.
A traumática experiência como deputado o impediu de repetir a dose. Enterrou as pretensões legislativas e não mais se candidatou a deputado. Mas, se não conseguiu espelhar as demandas operárias, a vivência daquele período foi crucial para o amadurecimento político e representou um degrau a mais na escalada à Presidência. Sete meses antes do término dos trabalhos na Assembléia Nacional Constituinte, Lula se lançou candidato às eleições presidenciais de 1989.