Começa hoje a materializar-se o encontro, muitas vezes marcado, entre Lula e a Presidência. Em 1989 ele esteve perto do poder. Sua derrota marcou o declínio do ciclo de grandes mobilizações sociais, iniciado em 1978, e desencadeou a onda liberal conservadora.
Em 1994, uma sociedade esgotada por persistentes surtos inflacionários depositou suas esperanças em um intelectual de esquerda a quem os donos do poder pareciam estar dispostos a entregar os anéis para não perder os dedos. Menos que o rechaço a Lula, foram os êxitos iniciais do Plano Real que deram a FH a base popular necessária para vencer as eleições no primeiro turno.
A estabilização dos preços escondeu a desestruturação do sistema produtivo que os juros altos, a abertura selvagem e o Real sobrevalorizado provocaram em quatro anos, deixando um rastro de desemprego e exclusão que o aspirante à reeleição prometia pôr fim em 1998.
A desvalorização da moeda, em janeiro de 1999, teve efeito simbólico devastador sobre a credibilidade do projeto de Fernando Henrique e tornou visível as mazelas do modelo econômico, especialmente o brutal endividamento público e, sobretudo, a enorme vulnerabilidade externa.
Durante todos esses anos a sociedade brasileira refletiu profundamente sobre seus problemas e alternativas. Nesse período, o PT e Lula também fizeram seu aprendizado nos embates sociais, nas batalhas parlamentares ou nas ricas experiências de governos municipais e estaduais, mesmo quando elas se traduziram em fracasso.
A reflexão de Lula e de seu partido pôde fazer-se com certa desenvoltura na medida em que, desde seu nascimento, o PT não se prendera a doutrinas-guia.
Como ''esquerda social'', com traços movimentistas, esse partido pós-socialdemocrata e pós-comunista deixara à sua porta, do lado de fora, boa parte dos dogmas que haviam até então acompanhado as esquerdas. Seguia, assim, a recomendação premonitória de Mário Pedrosa feita na fundação do PT. Não se tratava de afirmar novas certezas, menos ainda de abandonar compromissos, mas de transformar perplexidades, erros e acertos em matéria-prima para uma nova construção política. O PT amadureceu, Lula talvez mais ainda. O fruto desse amadurecimento refletiu-se na campanha eleitoral de 2002.
O que estava em jogo era a necessidade de dar resposta à crise estrutural em que o país se encontrava mergulhado, agravada por circunstâncias conjunturais, particularmente as internacionais, que podiam (e podem) lançar-nos no pior dos mundos.
Foi essa conjuntura que aconselhou a estratégia de constituir uma ampla aliança capaz de dar governabilidade a um projeto de mudança do país.
A reafirmação de um modelo de crescimento com distribuição de renda, que faça do social o elemento estruturante da nova economia, com aprofundamento da democracia e afirmação de um lugar soberano para o Brasil no mundo, não era apenas a reiteração de uma proposta estratégica, mas um imperativo da conjuntura.
Os que pensam que Lula e o PT ''foram para a direita'' não entenderam que o Brasil inclinou-se para a esquerda. A tal ponto esse movimento foi consistente que uma parte importante das elites política e econômica, antes avessas ao PT e a seu candidato, acabaram por convencer-se de que a única alternativa consistente era a de um novo modelo econômico a ser construído responsavelmente, dentro dos marcos estritos da democracia. Consciente das enormes dificuldades que tem pela frente, Lula reafirmou sua disposição de caminhar serenamente pelo caminho minado dos constrangimentos macroeconômicos para poder atingir a reforma econômica, social e política que o país espera há séculos. Ele tem reiterado a enorme confiança nas potencialidades do país, mas não tem deixado de dizer que a gravidade do momento exige debate e convergência de forças para chegar a um ''novo contrato social''.
Para uma esquerda acostumada a pensar o poder como um locus a ser conquistado e não uma relação a ser construída, tudo isso pode parecer déjà-vu, crônica de uma capitulação anunciada.
Aqueles que pensam ter encontrado um novo Lula em 2002 talvez tenham subestimado o fato de que Lula também encontrou um novo país em sua marcha para o Planalto.
Foi a conjunção dessas duas mudanças que permitiu a vitória do PT.