Se, até bem pouco tempo atrás, o Partido dos Trabalhadores provocava uma espécie de urticária no meio empresarial, nos últimos meses a aproximação construiu uma espécie de ponte imaginária entre o capital e o trabalho.
- O PT não defende nada de tão diferente do que todos os empresários querem: um mercado consumidor maior, melhor distribuição de renda e uma economia mais voltada para o setor produtivo - observa o empresário Lawrence Pih, chinês de nascimento, presidente de um dos maiores grupos de trigo do país, o Moinho Pacífico, um dos primeiros a aderir ao PT, há cerca de 18 anos.
Pesos-pesados da economia, de diferentes setores, sentaram-se à mesa com o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e ouviram suas propostas de governo. Figuras como Roberto Setúbal, presidente do Itaú; Lázaro Brandão e Márcio Cypriano, comandantes do Bradesco; Roger Agnelli, presidente da Vale do Rio Doce, e tantos outros. Alguns executivos passaram a usar até mesmo estrelinha na lapela, como o presidente da Gradiente, Eugênio Staub, que conseguiu outras adesões de fôlego.
- Lula e o PT estão comprometidos em buscar o maior crescimento, em reduzir a desigualdade social, mantendo sempre a austeridade fiscal - disse Cypriano ao JB.
Roberto Setúbal operou em Nova York como uma espécie de bombeiro para banqueiros estrangeiros assustados com o que poderia sair de um governo de origem trabalhista. Tucano de primeira linha, chegou a ser confundido como um dos recém-convertidos à onda vermelha. O presidente do Itaú, no entanto, procurou assegurar que votou em Serra sim, mas que não via Lula, de forma alguma, como bicho-papão.
E quem iria imaginar que até mesmo o ex-ministro Delfim Netto, deputado reeleito pelo PPB, iria se aliar às propostas do PT? Em entrevista ao JB, o economista foi muito claro: ''Não fui eu que mudei. Eles é que vieram para o meu lado. Estou onde sempre estive.''
Não foram poucas as reuniões entre empresários, banqueiros e o PT. Também ocorreram inumeráveis seminários e palestras. Nesses encontros, Lula e seus assessores procuraram assegurar que a principal conquista da era Fernando Henrique, a estabilidade econômica, seria mantida.
Para reduzir os juros, reiterou-se, não será dada carta de alforria à inflação sem freios. Os contratos serão mantidos e não haverá grandes surpresas. Mas o PT também ressaltou que a sua diretriz econômica rumo a um crescimento mais expressivo dará mais ênfase ao empresário nacional, ao mercado interno, às questões sociais, sem fechar as portas do Brasil ao mercado global.
Não será, porém, missão fácil. É consenso entre economistas de diferentes tendências que o quadro internacional será adverso. Diante de tantas demandas urgentes, convém conter expectativas.
- O PT, contudo, não será refém do mercado - diz Pih.