Seja simples. Agora é moda

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista

Cai a estrela que Gisele Bündchen traz tatuada em azul no pulso direito. Luxuosa demais para os novos tempos. Brilha a do button de lata, a estrela vermelha do PT, que a governadora Benedita da Silva crava com alfinete na gola do blazer. A simplicidade será a prova dos nove, se é que os novos governantes saberão fazer esta conta, e, definitivamente, seremos todos, a partir de ontem, menos exibicionistas. Não é só o poder político que muda com a vitória de Lula. O estilo, a moda, a cultura, o jeito de ver as estrelas das musas também.

Desde o cavanhaque-e-bigode do presidente Washington Luís, em 1926, um homem não governava a nação com tanto pêlo no rosto - e isso deve querer dizer alguma coisa. Só as pessoas muito superficiais, não é mesmo, meu caro Oscar Wilde?, não se deixam levar por aparências. A barbicha de Washington Luís era a do almofadinha na porta da Colombo. Queria dizer ''oi'' para as melindrosas e caçada total aos guerrilheiros da Coluna Prestes. A de Lula, grisalha, mais fofinha depois que passou a receber os cremes amaciantes recomendados pelo Duda Mendonça, ninguém sabe direito ainda o que vai dizer - ''empresta, mas não esculacha''? - para os pastinhas do FMI.

Lula não usa mais a camiseta metalúrgica do ''Hoje eu não tô bom!''. Veste Armani da Daslu. Nos dias mais frios, no entanto, forra-se por baixo com uma camiseta Hering e alguém já viu que nela está escrito ''Endurecer, mas sem perder a ternura''. A vitória do operário põe em cena um rosto masculino viril, marcado por uma ruga de sofrimento aqui, outra de decepção acolá - mas sempre capaz de emocionar as mulheres, como o rosto sedutor de José Mayer. Cai o ibope do bem escanhoado Reynaldo Gianecchini. Bonitinho demais, vazio demais para um tempo que vai exigir de todos um cenho franzido, cheio de conteúdo, diante das mazelas das questões sociais.

Se o espírito democrático e feliz de JK estimulou o Brasil a trocar o samba-canção noturno pela bossa nova solar, o governo Lula deve vibrar outras tantas cordas escondidas na alma brasileira. Tom Jobim - vai entender um artista! - de alguma maneira se sentiu provocado a abrir a tampa do piano e saudar a garota de Ipanema, que já passava na Montenegro havia anos, com acordes típicos de um governo progressista e voltado para a classe média.

No governo Lula, estará em alta a canção engajada. Mano Brown, Yuka e os rappers da periferia vão radicalizar na fome de justiça social dos manos e das minas. Chico Buarque, olhos verdes na onda vermelha, deve esquecer o drama urbano das grandes cidades, tema dos seus últimos discos. É provável até que volte a musicar a vida e morte severina. Daí a tatuar ''Todo poder ao povo preto'', como Xis, outro arauto dos novos tempos, fez no braço, ainda é cedo para anunciar. De qualquer maneira, anote-se uma aposta forte de tendência.

Será na verdade um governo mixed, como essas lojas multimarcas que andam em moda na Oscar Freire e na Visconde de Pirajá. Você entra mas os estilos são tantos que você não sabe como sairá vestido dela. O que podem fazer Itamar, Quércia, Sarney e Newton Cardoso num governo de esquerda além de aproveitar o momento para anunciar que estão formando um Buena Vista Social Club de políticos? Tudo é possível.

Um governo com essa gente, mais um presidente metalúrgico e um vice empresário parece uma aliança tão exótica quanto essas de miçangas da Feira Hippie - e, a propósito, tudo que for artesanal ou vendido sobre tabuleiros será in. O brasileiro, que já foi antes de tudo um forte, será antes de tudo um ambulante aos gritos de ''é tudo por um real'' - anote também esta tendência de oportunidade e negócio.

Lula lá mexe com tudo aqui, e o que isso vai significar em nossa felicidade cotidiana nem a mãe Valéria dos postes de Copacabana é capaz de prever. Querem os especialistas que Lula só foi eleito porque lustrou a fala e o visual. Quando se fez de pobre, perdeu. É bem capaz de chamar Sebastião Salgado, o esteta da pobreza glamourosa, para lhe fazer o retrato oficial. As tendências que escapulirão para a vida das pessoas dessa política, que vai equilibrar o FMI com o MST, já dão seus primeiros sinais.

1) Na televisão, por exemplo, quando os pés luxuosos de Luana Piovani aparecem propagandeando a simplicidade eficiente das sandálias Havaianas. O básico será um luxo. 2) No cinema, quando o publicitário Fernando Meirelles sentiu no ar os ventos da mudança e contratou para seu filme Cidade de Deus os moleques do Vidigal. O luxo será dar força à estética do básico.

Por enquanto só Jonathan Haagensen, um desses atores do Nós do Morro, morador do trecho conhecido como Biroscão, já teve uma antevisão dos novos tempos. No dia em que o candidato do PT atingiu 49% das intenções de voto no primeiro turno, Jonathan, o bandido Cabeleira do Cidade de Deus, contou que tinha ido a uma festa num clube de classe média na Zona Sul. Apesar da euforia de seus 19 anos, quase não deu conta do recado. ''Quando olhei em volta'', vibrava Cabeleira, ''tinha 15 gatinhas dando em cima de mim''. Era o efeito da era Lulinha paz e amor apenas começando sua temporada de quatro anos no poder.

[28/OUT/2002]


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