Luiz Inácio Lula da Silva já tinha seus 10 anos de idade quando foi apresentado a um picolé. Seu pai, o agricultor Aristides Inácio da Silva, distribuía sorvetes entre os filhos do segundo casamento mas, na vez de Lula, nascido do primeiro relacionamento, desistiu. ''Você nem sabe chupar'', argumentou. Em 1989, 1994 e 1998, mais uma vez tiraram o doce da boca de Lula. O pretexto: ele não saberia o que fazer no Palácio do Planalto. Agora, o ex-metalúrgico e fundador do PT, enfim, chegou lá, no mundo das delícias do poder que pareciam a Lula negadas desde a infância.
Nasceu pobre, quase miserável. A família gosta de dizer que jamais passou fome. É um conceito relativo no agreste pernambucano. Ali fica Caetés, onde Eurídice Ferreira de Melo deu à luz, em 27 de outubro de 1945, o sétimo de seus 12 filhos. Em tempos difíceis, o casal alimentava as crianças com abóbora, farinha de mandioca e algum leite cedido pelo avô, dono de parcas vacas. Quando Lula (que agregou o apelido ao nome em 1982, quando disputou o governo de São Paulo) tinha duas semanas, o pai decidiu tentar a vida como estivador em Santos (SP). Só que não foi sozinho - levou a prima de dona Eurídice, Valdomira Ferreira de Góes, com quem teria outros 13 filhos.
Em 1952, Eurídice decidiu levar os filhos ao encontro do marido no Guarujá, onde estava Aristides. Foi quando descobriram a segunda família. A convivência forçada não deu certo. Quatro anos depois, Lula, a mãe e os irmãos foram para São Paulo. Ele pouco viu o pai depois disso: Aristides morreu, alcoólatra, em 1978.
Aos 14 anos, Lula arrumou emprego numa fábrica de parafusos. No primeiro dia, ao fim de uma jornada na qual cumpriu a tarefa de catar restos de metal no chão, o rapaz decidiu lambuzar o macacão de graxa para ficar com jeito de operário.
Em Caetés, Lula não tinha sequer concluído o antigo curso primário. Compensou com o de torneiro mecânico no Senai. Com emprego e carteira assinada, virou um típico proletário de São Bernardo do Campo (SP). Gostava de futebol, era fã de bangue-bangue e mal lia jornais. Casou-se em 1969 com a operária Maria de Lourdes que, meses depois, grávida, morreu vítima de erro médico.
Desgostoso, vendeu a casa e o carro e ensimesmou-se. Ganhou a solidariedade de outro metalúrgico, Paulo Vidal, presidente do sindicato da categoria. Se o irmão comunista José Ferreira da Silva, o Frei Chico (que não é frade e, sim, calvo) foi quem o iniciou no debate político - Lula recebeu dele seu primeiro exemplar de um livro sobre política, O que é Constituição?, no início da década de 70, quando nem tinha barba -, foi de Paulo Vidal que recebeu o trono de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em 1975.
No ano anterior, teve um rápido relacionamento com a enfermeira Miriam Cordeiro, do qual nasceu Lurian, pivô do famoso episódio de vileza eleitoral promovido por Fernando Collor na campanha de 1989. Também foi quando se casou com Marisa Letícia, mãe de Marcos, a quem Lula adotou, e com quem teve Fábio, Sandro e Luiz Cláudio.
Vida familiar assentada, o metalúrgico iniciou a escalada política. Muita gente que votou em Lula agora não imagina o que eram as assembléias do Sindicato dos Metalúrgicos, durante o regime militar, reunindo milhares no estádio da Vila Euclides nas greves de 1978, 1979 e 1980, lideradas pelo pernambucano barbudo e enfezado que logo chamou a atenção da imprensa.
Na última greve, foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Saiu da cadeia para realizar o sonho de fundar o Partido dos Trabalhadores, pelo qual concorreu em 1982 ao governo de São Paulo (ficou em quarto lugar) e pelo qual foi o deputado federal mais votado do país em 1986, nas eleições para a Assembléia Nacional Constituinte. O Lula que chegou à sua primeira tentativa presidencial em 1989 já não era o sindicalista de São Bernardo.
Havia se mudado da casa tipo BNH num bairro operário da cidade para a do amigo empresário Roberto Teixeira, num local mais ao gosto da classe média alta. Já havia adquirido mais intimidade com ternos e gravatas, aprendera a aparar a barba e começara a viajar com mais assiduidade ao exterior, como presidente do PT.
Depois da derrota para Fernando Collor e ao longo de duas outras campanhas fracassadas para a Presidência da República, Lula correu chão. Nas Caravanas da Cidadania de 1993 e 1994, andou pelo Brasil. Pelo mundo, apareceu como interlocutor de personalidades internacionais como Fidel Castro, François Mitterrand e Nelson Mandela. Ganhou tiques de estadista. Hoje, o metalúrgico que chegou à Presidência da República é um sujeito de classe média, dono de um apartamento de cobertura, ainda em São Bernardo do Campo, berço esplêndido de sua liderança.
Agora, tomou gosto pela cozinha - vive de dieta (com pouco sucesso, é verdade), mas consta que sua rabada com polenta no fogão de lenha equivale à famosa feijoada da governadora Benedita da Silva -, não dispensa uma cachacinha nos momentos de folga e é fã de Chico Buarque e Caetano Veloso. Se o português trôpego dos tempos de sindicato foi apenas retocado, ele deu mesmo um jeito definitivo na barba. Que, de ameaçadora, virou outro símbolo do Lulinha paz e amor.