O nome do mercado

Eduardo da Rocha Azevedo

Ex-Presidente da Bovespa

O mercado de derivativos em giro no mundo chega a US$ 100 trilhões, segundo os dados mais recentes do Banco de Acordos Internacionais. Os derivativos cresceram muito no Brasil. Com a transparência que têm, é natural que se pergunte qual será a atitude do novo governo diante deles.

Nos países em que esses mercados existem há mais tempo, como nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão, ninguém questiona a eficiência dos contratos futuros, de opções ou swaps (trocas) por causa de mudanças de governo. As autoridades reguladoras agem somente se atravessadores tentam trapacear com os investidores.

Os swaps de moedas foram consagrados há quase 30 anos, quando o Banco Mundial fez uma operação envolvendo a IBM e o Salomon Brothers. O Banco captou marcos alemães e francos suíços sem ter de acessar diretamente os mercados da Suíça e da Alemanha.

Swaps, opções, futuros de dólar, boi, café, soja, milho e outras commodities são coisas correntes no mundo inteiro, usadas em países capitalistas ou socialistas. Se esses mercados parassem, a economia capotaria junto, pois todo o trade mundial trabalha hoje ancorado em coberturas (hedge) contra riscos de preços e taxas.

Existem especuladores operando nesses mercados? Sim. Mas muitos ignoram que o especulador toma o risco de quem quer se livrar dele. As economias mais ricas e estáveis do mundo são também aquelas em que é maior o mercado de ''seguros'' através de derivativos. Elas convivem com o especulador e tentam se livrar somente do atravessador, pois este tenta mesmo distorcer o mercado.

Outro ponto esquecido é que o derivativo, como o nome diz, é um contrato que ''deriva'' de outra coisa. Um contrato futuro de dólar ''deriva'' do dólar à vista. Um contrato futuro de café ''deriva'' do café disponível e assim por diante. Infelizmente, no Brasil os mercados derivativos nem sempre são vistos como efeito, mas como causa.

Quem pensa assim acha que pode rasgar contratos e chamar o Estado para garantir riscos. Como subproduto aparece o clientelismo político e a conta vai para a viúva, o Tesouro, acabando no bolso de todos nós, contribuintes.

Quando o Plano Cruzado começou a fazer água, um dos alvos escolhidos foi o contrato futuro do boi gordo negociado em bolsa. O governo confiscou bois no pasto. No dia seguinte o Cruzado desabou. O plano real proporcionou um período de estabilidade bem maior aos brasileiros.

Graças à estabilidade, um pedaço da memória inflacionária se apagou e os prazos se alongaram nos contratos futuros. Na atual virada de governo, porém, a inflação ameaça voltar, realimentada por expectativas que - certas ou erradas, com overshooting do dólar ou não - estão se refletindo nos derivativos. O candidato que chegou à reta final declarara que pretende manter superávits fiscais e realizar as reformas que faltam, como a previdenciária, a tributária e até a política. Se mostrar firmeza, o espelho do mercado refletirá na hora e o overshooting (exagero nas cotações) acaba. Se for frouxo ou ambíguo na largada, lembre-se da Bíblia: porque não és frio nem quente, te cuspirei da minha boca.

A pior escolha é atirar no espelho. O tempo dos confiscos já passou. Partes da mídia e da opinião pública até podem ignorar o que é um swap, um derivativo de câmbio ou o mercado de ações na Bovespa. Mas todos com certeza saberão identificar o primeiro demagogo que quiser romper contratos e tocar fogo nos palcos do mercado se a cena for ruim. O verdadeiro nome do mercado é Povo, é cada cidadão que fez um pé de meia ou investiu num pequeno ou grande negócio e, como eu, cumprindo o ritual da democracia, depositou nas urnas um crédito de confiança nos novos dirigentes.

[28/OUT/2002]


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