|
Vitórias no Grammy retratam longevidade
De 'Getz/Gilberto' a 'João: voz e violão', um caminho reconhecido
Nova Iorque, março de 1963. Por dois dias João Gilberto e o saxofonista americano Stan Getz se reúnem nos estúdios da gravadora Verve para gravar o antológico disco Getz/Gilberto. A esta altura, o cantor e violonista brasileiro já trazia na bagagem três LPs - (Chega de saudade (1959), O amor, o sorriso e a flor (1960) e João Gilberto (1961)) - dois deles já lançados nos Estados Unidos. Mas foi o mitológico registro, que contou com as participações de Tom Jobim ao piano, Milton Banana na bateria e Tião Neto no contrabaixo, o responsável pelo estouro mundial da música popular brasileira.
Além das críticas efusivas que reverenciavam o talento de João Gilberto, o álbum rendeu nada menos que nove indicações ao Grammy, o Oscar da música. Arrematou quatro prêmios, entre eles melhor álbum e gravação do ano. Getz/Gilberto traz oito faixas: Só danço samba, O grande amor, Pra machucar meu coração, Doralice, Desafinado, Vivo sonhando, Garota de Ipanema e Corcovado, estas duas últimas contando com a participação da então estreante Astrud Gilberto.
Para o júri, revelava-se ali o melhor cantor e o melhor violonista do momento. Vale sublinhar que João cantava em português e concorreu na categoria melhor cantor de jazz com ninguém menos que Louis Armstrong, o monstro sagrado do jazz americano. João não levou o prêmio de cantor, mas abriu de maneira definitiva os olhos estrangeiros para a música made in Brazil.
Fevereiro de 2001. Quase quatro décadas depois da primeira premiação, João Gilberto novamente ganha o Grammy, agora pelo disco João: voz e violão, produzido por Caetano Veloso, na categoria world music, que já havia premiado nos anos anteriores outros três brasileiros: Milton Nascimento, Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente.
Entre o primeiro prêmio e o último, João Gilberto foi indicado ao Grammy outras vezes: em 1977, ao prêmio de melhor vocalista de jazz pela atuação no disco Amoroso, e de melhor arranjo por Besame mucho, do mesmo disco. Na década de 80 voltou a concorrer ao prêmio com o CD Live in Montreux, novamente na categoria melhor cantor de jazz. Ao todo foram 13 indicações e cinco prêmios conquistados pelos discos do brasileiro.
A insistente presença de João Gilberto no Grammy revela o fôlego de um performer que se mantém em sutil e permanente renovação, que sabe ser diferente sem nunca deixar de ser João Gilberto. Revela ainda o desempenho quase atlético de um artista metódica e obsessivamente rigoroso com sua arte e constantemente comprometido com a perfeição.
|