Se tivéssemos um pouquinho de São Franscisco de Assis, que amava os pobres e os animais, e fôssemos assistir "Bicho de Sete Cabeças", filme premiadíssimo de Laís Bodanzky, com o ator Rodrigo Santoro retratando o criminoso tratamento e a injusta condenação que ainda recebem os nossos doentes mentais, o Brasil não seria o mesmo. Os hospitais psiquiátricos, com todo o seu notório saber, e a maioria de seus médicos, enfermeiros e atendentes, estariam todos no banco dos réus. E os manicômios, com seus algozes, fechados e destruídos para sempre, tal como a humanidade fez com a vergonha dos seus muros e campos de concentração.
Em termos de ecologia humana, a contribuição de Rodrigo, este talentoso artista de apenas 27 anos, natural de Petrópolis, Estado do Rio, ao passar como louco, tem a dimensão exata da luz que a sua denúncia leva aos porões da psiquiatria brasileira, como em todo mundo tido civilizado. Ao retratar o personagem Neto, um jovem estudante de 2o grau que entra em conflito com seu pai, vivido pelo ator Othon Bastos, que o interna numa clínica psiquiátrica após ter descoberto um baseado de maconha em sua mochila, Santoro denuncia o que pode acontecer com qualquer um de nós. Pior, o que ainda acontece hoje, aqui e agora, somente na terra brasilis, com 60 mil seres humanos. Gente como a gente. Homens, mulheres, crianças, jovens e velhos ofendidos e humilhados. Incompreendidos feito os bichos de todas as cabeças, cujos habitats também continuamos degradando e destruindo insanamente, todos os dias.
Cuidar, sim. Excluir, não.
Rodrigo Santoro fez mais. Ele também trouxe à luz uma iniciativa do Conselho Federal de Psicologia, nascida no final do ano passado, em Brasília, com apoio do Fórum das Entidades Nacionais dos Trabalhadores da Área de Saúde Mental, Associação dos Juízes pela Democracia e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Foi no Auditório Petrônio Portela. Eu estava lá.
Sob o nome de "Tribunal dos Crimes da Paz" e diante de um plenário lotado de pacientes e ex-pacientes, cujos depoimentos e testemunhos verdadeiros fizeram verter lágrimas até na mais fria das autoridades presentes, os hospitais psiquiátricos foram julgados simbolicamente pelos crimes cometidos contra os direitos humanos no país.
O Tribunal, mesmo que simbólico, já que a Justiça real não se pronuncia como até o cinema o faz, não deixou pedra sobre pedra ao denunciar a falência do hospital psiquiátrico enquanto recurso assistencial no Brasil. O caráter violador dos direitos humanos, os altos custos financeiros de sua manutenção e a sua ineficiência contradisseram a força da sua presença no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Foram apuradas as suas responsabilidades históricas na produção da violência institucional. Foram documentados os modos operacionais, supostamente técnicos, por meio dos quais essa violência se perpetua.
O evento, que infelizmente não ganhou uma linha sequer de notícia na imprensa nacional, muito menos qualquer espaço digno e parceiro na mídia televisiva, mais preocupada em cobrir as bandalheiras de sempre na Câmara dos Deputados, ao lado, se uniu a outro. À "III Conferência Nacional de Saúde Mental", que aconteceu simultaneamente na Academia de Tênis de Brasília, sob o tema "Cuidar, sim, excluir não".