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Memória Iluminada: Vinícius - Se todos fossem iguais a você
Imperdível, necessário e balsâmico, o documentário “Vinícius”, que retrata com brilhantismo a vida do saudoso “poetinha” carioca, emociona o país
Cine Leblon, no coração de Ipanema. É noite na Cidade Maravilhosa. É estréia do documentário “Vinícius”, de Miguel Faria Jr., sobre a vida e obra do poeta mais musical e apaixonado do Brasil. Na platéia, inimaginavelmente pouca, a presença solitária de Marina Lima chama a atenção.Com a os atores Camila Morgado e Ricardo Blat declamando as poesias mais contundentes de Vinícius, e depoimentos cada um mais vívido do que o outro, de Chico Buarque a Maria Bethância, passado por Caetano e Ferreira Gullar, não há coração que resista. Nem o choro reprimido, o riso contido, as paixões encobertas. O documentário que termina surpreendente, o mais carioca gozador impossível, revela uma platéia em forma não de oração, porque gargalha feliz. Mas em forma de gratidão, porque aplaude. Aplaude como se ele, o poeta, o diplomata, o músico, o compositor, o boêmio, o amigo e o ser humano maior que Vinícius de Moraes estivesse no palco, à frente da tela. Imperdível, necessário e balsâmico, o documentário “Vinícius”. Quem ainda tem amor no coração e, principalmente, quem já o esqueceu e teme viver para não sofrer, não pode deixar de assisti-lo. É receita demais, carioca da gema e de vida. É a bula cheia, revista e sem contra-indicações, de poemas e músicas inesquecíveis do poeta, como rememoramos aqui, em sua lembrança: Perdão - “Quem não perde perdão não é nunca perdoado”. Caminho - “Vai tua vida. Teu caminho é de paz e amor. A tua vida é uma linda canção de amor”. Viver - “Que maravilha viver uma canção pelo ar, uma mulher a cantar, uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar”. Medo e ciúme - “Ciúme é um mal de raiz. Ter medo de amar não faz ninguém feliz”. Olhos - “São cais noturnos, cheios de adeus. São docas mansas, trilhando luzes”. Perguntas - “Tem dias que eu fico pensando na vida e, sinceramente, não vejo saída. Como é, por exemplo, que dá pra entender? A gente mal nasce, começa a a morrer. Depois da chegada vem sempre a partida”. Separação - “Não há nada sem separação”. Vida - “A vida é uma grande ilusão. Só sei que ela está com a razão”. Constatação - “Nada renasce antes que se acabe. E o sol que desponta tem de anoitecer”. Sim - “A hora do sim é um descuido do não”. Vadiagem - “Um velho calção de banho, o dia pra vadiar. Um mar que não tem tamanho, um arco-íris no ar. E numa esteira de vime, beber uma água de coco”. Traição - “Quem é homem de bem, não trai o amor que lhe quer seu bem”. Egoísmo - “Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém”. Avareza - “O dinheiro de quem não dá, é o trabalho de quem não tem”. Pátria - “A minha pátria é como se não fosse, é íntima. Doçura e vontade de chorar. É a luz, o sal e a água. Uma vontade de chorar. Minha pátria é desolação de caminhos. É terra sedenta. É o grande rio secular que bebe nuvem, come terra e urina mar.” Pau-de-arara - “Que seca dana no meu Ceará. Eu peguei e juntei um restinho de coisa que eu tinha. Duas calça velha, uma violinha. E num pau-de-arara toquei para cá. De noite ficava na praia de Copacabana, zanzando e dançando o xaxado pras moças oiá.” Carinho - “Carinho não é ruim. Mulher que nega, nega o que não é para negar. Tem uma coisa de menos no seu coração”. Bondade - “Ninguém tem nada de bom sem sofrer”. Coisa mais linda - “Quem dera a primavera da flor tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor, perfumando a natureza numa forma de mulher”. Poética - “De manhã, escureço. De dia, tardo. De tarde, anoiteço. De noite, ardo”. “Eu morro ontem. Nasço amanha. Ando onde há espaço. Meu tempo é quando”. Chorar e sofrer- “Pra que chorar, se o sol já vai raiar, o dia amanhecer? Pra que sofrer, se a lua vai nascer, é só o sol se pôr? Pra que chorar se existe amor”? Certeza - “A questão é só de dar, é só de dor. Quem não chorou, quem não se lastimou, não pode nunca mais dizer: pra que chorar, pra que sofrer, se há sempre um novo amor, em cada novo amanhecer”. Receita- “É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe”. Em tempo: impossível também deixar de comprar e ouvir o CD da trilha sonora de “Vinícius”. É puro encantamento, saudade complementar.
[01/DEZ/2005]
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