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A tragédia que o mundo não esquece

A explosão de um dos quatro reatores da usina nuclear de Chernobyl, há quase 20 anos, foi 500 vezes maior do que a bomba lançada sobre Hiroshima

O mundo entrou em alerta, quando chegaram as primeiras informações de um acidente em uma usina nuclear na Ucrânia, país da então União Soviética. A manhã de 26 de abril de 1986 seguia normal na Suécia. De repente, monitores de radiação da Central Nuclear de Forsmark detectaram no ar níveis de iodo e cobalto muito acima dos considerados normais. O mesmo se deu nos outros países nórdicos, Finlândia, Noruega e Dinamarca. A brisa radioativa, aparentemente, vinha da URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Só quase 12 horas depois, no entanto, já no dia 27, uma breve nota no noticiário matinal da televisão russa, em Moscou, informava sobre “uma explosão, incêndio e fusão do reator Vladimir Ilitch Lênin”, em Pripyat, nordeste da Ucrânia.

Começava assim a mais aterrorizante das histórias envolvendo a liberação, sem controle, de energia nuclear. Era o mais grave acidente do gênero de todos os tempos. O governo soviético levou dias para admitir que algo sério havia acontecido. Enquanto isso, os ventos radioativos avançavam. Em poucos dias, chegaram ao Japão. Em seguida, aos Estados Unidos e ao Canadá. Embora a União Soviética, sem tradição de liberdade de imprensa, estivesse experimentando os primeiros ventos de uma abertura política (glasnost) com Mikhail Gorbachev, só 18 dias depois, o presidente foi à televisão para dar a real dimensão da tragédia.

“Boa noite, camaradas. Todos vocês sabem do inacreditável infortúnio – o acidente na usina nuclear de Chernobyl. Ele afetou duramente o povo soviético e chocou a comunidade internacional”, afirmou Gorbachev, acrescentando sombriamente: “Pela primeira vez, nos confrontamos com a real força da energia nuclear fora de controle”.

Um satélite dos Estados Unidos conseguiu flagrar a usina com o teto destruído, o reator ainda em chamas, com fumaça saindo abundantemente do seu interior. O acidente aconteceu durante um teste de segurança no reator quatro. Mais tarde, verificou-se que várias regras de segurança haviam sido burladas. Mais de oito milhões de cidadãos da Ucrânia, Rússia e Bielorússia foram, em maior ou menor grau, expostos à radiação.

Problemas mentais – A propósito dos 20 anos do acidente, a ONU divulgou um relatório, em setembro último, que surpreendeu o mundo: 56 pessoas já morreram até hoje em conseqüência direta da radiação liberada pelo reator de Chernobyl, afirma o documento, um número bem menor do que se falava logo após o acidente. Por outro lado, mais de quatro mil moradores da região, sobretudo crianças e adolescentes, foram diagnosticadas com câncer da tireóide nos anos posteriores à explosão, que também teve um impacto direto profundo sobre animais e plantas nos três países soviéticos.

“O impacto de Chernobyl sobre a saúde mental é o maior problema na região até agora”, diz o relatório da ONU, enumerando milhares de casos de depressão, ansiedade aguda e outras anomalias psíquicas, que levam os pacientes a abusarem do álcool e do cigarro. Também há milhares de vítimas da alopecia universal (doença que provoca a perda total dos cabelos), normalmente acompanhada de vitiligo, manchas brancas na pele, um tipo de enfermidade que também deixa seqüelas psíquicas. Junta-se a isso o estresse e o trauma da evacuação – mais de 300 mil (???) pessoas tiveram que abandonar suas casas e o fato de haver muita desconfiança em relação às informações sobre o acidente fornecidas pelas autoridades. Muitas pessoas levaram anos para tomar conhecimento do que realmente aconteceu na usina.

O texto da ONU, intitulado “O legado de Chernobyl: Impactos sanitários, ambientais e sócio-econômicos”, está condensado em três volumes, com 600 páginas, e foi elaborado por uma grande equipe de cientistas, médicos e pesquisadores.

Mundo dividido – Muitos anos depois do acidente, uma vasta extensão da Europa continuava contaminada com níveis altos do isótopo radioativo césio 137, o mesmo que contaminou brasileiros, em Goiânia, em 1987. De acordo com o jornal francês Le Monde, em algumas áreas a radioatividade era 50 vezes maiores do que os padrões europeus de lixo nuclear.

A explosão do reator em Chernobyl provocou intensas discussões no mundo inteiro sobre a questão da segurança das usinas nucleares. E teve um papel fundamental na decisão do Partido Verde alemão de impor ao governo social democrata do ex-chanceler Gerhard Schroeder como condição para fazer parte da coalizão de governo o fechamento das 19 usinas nucleares que o país dispunha. Isso foi no ano 2000. A Alemanha, que vendeu ao Brasil a tecnologia utilizada em Angra I e II, aprovou um plano que prevê o fim da utilização da energia nuclear no país até 2020. Especialistas dizem, no entanto, que o novo governo conservador da chanceler Angela Merkel, formado recentemente, pode reverter esta política e suspender o programa de fechamento das usinas. Merkel já deixou claro que é a favor da manutenção delas.

Na Europa, dois outros países, Suécia e Bélgica, também anunciaram o fechamento de usinas. Mas, os analistas acham que, passados 20 anos, a energia nuclear está voltando a ser aceita pelos os países. A Finlândia, por exemplo, está construindo uma usina nuclear. Esta também parece ser a disposição do Brasil, que, tudo indica, deve levar adiante o projeto de construção de Angra III.

Ambientalista defende - Para surpresa de muita gente, um dos grandes gurus do ambientalismo europeu, o inglês James Lovelock, também se rendeu à energia nuclear. Considerado o pai da teoria de Gaia, segundo a qual a Terra é um único e vivo organismo, Lovelock diz que “a oposição à energia nuclear é baseada em um medo irracional alimentado pelos filmes de ficção de Hollywood, pelo lobby verde e pelos meios de comunicação”. Segundo ele, “esse temor não se justifica, já que a energia nuclear, desde o início, em 1952, tem provado que é a mais segura de todas as fontes de energia”. O assunto é, no mínimo, polêmico.

Os 20 anos do maior acidente nuclear da história, em abril do ano que vem, serão marcados por atividades em países dos quatro cantos do planeta, inclusive por um seminário internacional em Kiev, capital da Ucrânia, destinado a discutir as lições que podem ser tiradas do que ocorreu na usina de Chernobyl. Que reflexões deve fazer um mundo cada vez mais dividido em relação ao uso da energia nuclear?


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[01/DEZ/2005]


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