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Os esquecidos de Chernobyl

Pesquisador francês passa anos convivendo com vítimas da tragédia e faz duras críticas ao tratamento que receberam

Alfredo Pena-Vega, sociólogo e pesquisador do Centro de Altos Estudos em Ciências Sociais da França, passou os últimos nove anos convivendo com vítimas do acidente atômico de Chernobyl.

Junto a uma equipe transdisciplinar com mais nove pesquisadores contratados pela Eurotom, braço da Comunidade Européia para a energia nuclear, devotou seus estudos aos impactos da contaminação sobre comunidades isoladas da Bielorrússia, país fortemente atingido pela tragédia. Foram pesquisados o Distrito de Stolyin, com 1.300 habitantes, de 1996 a 1999, e o distrito de Narobblya, mais próximo à área diretamente atingida, com 12 mil habitantes, de 2000 a 2004.

Em entrevista exclusiva à JB Ecológico, Pena-Vega faz duras críticas às empresas nucleares e às agências internacionais responsáveis pela mitigação da tragédia. Reclama da concessão do Premio Nobel da Paz à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Conta sobre o cotidiano das pessoas afetadas pela contaminação. E comenta os efeitos da explosão que ainda são guardados pela natureza: “As pessoas, nestas regiões, ainda usam muito a madeira da mata para se esquentar e cozinhar. E a contaminação das cinzas é, ainda hoje, do nível da explosão de Chernobil”, alerta.

JB Ecológico -Por que começar os estudos pelo distrito de Stolyn, na Bielorrússia?

Alfredo Pena Vega - Era uma região mediamente contaminada, num povoado de 1.300 pessoas que não aceitaram ser evacuadas. Era também uma região de pantanal, matas e elevada produção de frutas silvestres típicas da região, com uma forte relação das pessoas com a natureza dada sua tradição agrícola. Foi por isso que aceitamos trabalhar neste lugar.

JBE - Quando se fala em Chernobyl toca-se muito nas áreas diretamente influenciadas pela explosão, mas não nos impactos nas comunidades isoladas. Elas foram esquecidas?

APV - O que houve para algumas dessas comunidades foram recomendações e cartilhas elaboradas por tecnocratas, que nunca se preocuparam com a realidade local. Havia um caderninho com recomendações de como limpar a casa, as mãos e até como cortar a carne. Mas foi uma ação profundamente concebida na idéia de proibição e do que não se podia fazer. Não houve e até agora não existe uma verdadeira filosofia da prevenção, como se faz nas grandes crises sanitárias da Europa, por exemplo. Essas comunidades foram quase esquecidas.

JBE - Qual foi a extensão do impacto radioativo?

APV - A nuvem radioativa saiu da Ucrânia, atravessou a Bielorrússia e depois viajou até a Europa Ocidental. Poucos foram os países que tiveram uma política de prevenção para a gravidade do problema. A França, por exemplo, escondeu durante anos o verdadeiro impacto que teve o acidente de Chernobyl e as cartas de contaminação que circulavam no governo não eram públicas.

JBE - Por que esses governos fizeram isso?

APV - Não podemos esquecer que na Europa ainda não há consenso sobre a energia nuclear. A Alemanha, já há algum tempo, tem uma forte cultura mesmo contra o nuclear civil. A França, por sua vez, é uma grande potência nuclear e o maior vendedor de centrais nucleares no mundo. Precisava haver uma omissão para que a repercussão não atingisse as pretensões comerciais destes grupos e ressalvar a importância da energia nuclear. Até agora não há transparência e uma verdadeira autocrítica do setor sobre Chernobyl. Você pode ver que, nas publicações das grandes agências internacionais que se interessaram sobre Chernobyl, sempre houve uma minimização do problema, em todas as áreas. O relatório da OMS, lançado em 1996, concluiu que essas populações sofrem de patologias porque teriam radiofobia. Seria mais do que nada um stress, que provocaria patologias mais psicológicas do que sanitárias. Ora, em 1996 já se sabia que havia uma evolução importante da leucemia e de patologias cardíacas e de tiróide entre os jovens e os adultos. Uma organização internacional não pode fazer isso.

JBE - Quais os principais problemas que encontraram em Stolyn?

APV - Fiquei lá cinco anos e foram vários os problemas. O primeiro diz respeito a uma degradação sanitária entre os jovens. Nas escolas, onde costumam ir os médicos para examinar os jovens, muitos estão doentes com problemas na tiróide e com leucemia. Não há na Ucrânia e na Bielorrússia uma política medical para atender todas essas pessoas, nem um programa específico ou uma política nacional capazes de admitir o problema e atender estas pessoas. Gasta-se muito para identificar as doenças e pouco para tratá-las. Outro problema diz respeito à desconfiança da população com as autoridades. Muitas pessoas que tem suas famílias doentes não confiam mais no que dizem as autoridades. Os jovens, o que é mais grave, não querem ouvir mais nada sobre isso. Tudo isso conduziu a um fatalismo generalizado, como se todos estivessem condenados a viver esta situação permanentemente. E quando você condena a si mesmo, você perde os horizontes e a esperança de melhorar a própria vida.

JBE - Na segunda fase da pesquisa, vocês foram ao distrito de Narobblya (a 70 km do reator), que é uma área mais contaminada. Como foi?

APV - O Partido Verde europeu acusa violentamente as autoridades por não terem retirado estas pessoas, mas há muita gente que não quer ir embora e você não pode forçá-las a sair. Houve tentativas de tirá-las à força, mas elas quiseram ficar no lugar onde nasceram e construíram sua existência. Hoje, 25% de todo o território da Bielorrúsia estão contaminados. Na região de Narobblya, que possuía as terras mais férteis da Bielorrússia, 50% do território estão inexploráveis. De 15 grandes cooperativas que existiam na região, hoje há apenas três. É uma luta permanente pela sobrevivência, com muita pobreza. E agora com um fenômeno novo: o aparecimento de doenças vinculadas à pobreza, como a tuberculose.

Aí você ouve falar no novo relatório publicado em setembro deste ano pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), PNUD, OMS e outros organismos internacionais, que faz o balanço destes vinte anos de Chernobil. E você pode ver que houve novamente uma minimização do problema. O relatório diz que a situação não é tão grave como se pensava e que o principal problema não são as patologias diretamente relacionados à radioatividade, mas os problemas psicológicos. É o mesmo discurso e, se eles insistem nele, só podemos pensar que existe uma política para minimizar o que aconteceu e resguardar os grandes grupos econômicos. E, o cúmulo, foi a AIEA receber o Prêmio Nobel da Paz, como se isso servisse também para legitimar esta política. Durante os cinco anos que eu estive lá, não houve um só pesquisador desses organismos internacionais que apareceu na região para colher informações.

JBE - Na sua relação com as pessoas, que caso mais lhe tocou?

APV - Havia um jovem que entrevistei. Perguntei se ele se lembrava dos dias logo após o acidente. Ele respondeu que era uma situação muito estranha, todo mundo estava nervoso e ninguém sabia o que de fato estava acontecendo. Ele estava com 14 anos. E o que ele fez? Ajudou a evacuar as pessoas. E todas as crianças foram tiradas da região por três meses, separados dos pais. Ele se lembrava muito bem dessa separação. E depois? Depois ele se formou e saiu do lugar onde nasceu. Por que ele voltou? Porque, segundo ele, tinha um grande compromisso com sua gente. Ele sabia dos riscos de contaminação para ele e seus filhos, mas dizia que a terra dele era aquela. O que isso significa? Talvez o desejo de reconstruir a própria vida apesar de tudo.

JBE - Como foi conviver com o risco de contaminação?

APV - Da primeira vez, houve toda uma preparação Não tomávamos leite nem comíamos manteiga, champignons, peixes e demais produtos que vinham da mata. E não podíamos ficar muito tempo em lugares contaminados, não mais do que quinze dias.

JBE - Os rejeitos podem oferecer riscos para um novo acidente nuclear?

APV - Os resíduos foram deixados enterrados na mata, no mesmo lugar provisório que em foram deixados há anos. Todos os animais, com exceção dos cavalos, morreram. Em Stolyin, deixaram tudo aberto. Fizeram um grande buraco e lançaram estes rejeitos, ao lado de uma área de agricultura, contaminando tudo que havia a sua volta. As pessoas, nestas regiões, ainda usam muito a madeira da mata para se esquentar e cozinhar. E o nível de contaminação das cinzas é, ainda hoje, do nível da explosão de Chernobil. A concentração nas matas e bosques continua. Você pega isso, corta madeira, coloca no fogo e reativa tudo.

JBE - Podemos então concluir que o maior risco de contaminação hoje pode vir de queimadas em larga escala?

APV - Com certeza. Eles têm uma política florestal bem mais organizada hoje, mas o risco existe sim.

JBE - Diante do que testemunhou, o que acha das pretensões brasileiras em expandir seu parque nuclear?

APV - No Brasil ninguém sabe o que aconteceu em Chernobyl, inclusive os tecnocratas do Planalto. Não sabemos se daqui a cinco anos, por exemplo, haverá no Brasil, como na França, um fenômeno de temperaturas de verão absolutamente excepcionais. Na França não se falou que houve momentos muitos tensos para esfriar os reatores, em 2003, porque não estava calculado que o calor poderia chegar a 50 graus. Tiveram que tirar água dos rios e a devolveram quente, matando várias espécies, mas quase não se falou sobre isso. Tiveram até que chamar os bombeiros para jogar água nas paredes dos reatores. À parte isso, é como se estivesse tudo certo. Isso é que é revoltante. Há sempre alguma coisa escondida, no escuro, e sempre ficamos sabendo depois que ela passou.

JBE - E o futuro?

APV - A tendência, hoje, é que os grandes lobbies digam que a solução energética é nuclear. E a conivência de organismos internacionais subvenciona essa política. A China está comprando de 10 a 15 centrais nucleares da Franca, o Paquistão também quer e os países do leste querem trocar suas centrais nucleares. Agora, é o Brasil que quer investir nisso. O povo brasileiro tem que saber o que aconteceu em Chernobyl antes de assumir uma política nuclear. É uma parte de nossa humanidade que foi destruída e não podemos esquecer isso.


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[01/DEZ/2005]


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