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“O último herói do Brasil”
Ambientalista morre após atear fogo ao corpo, em protesto contra as usinas de álcool que Zeca do PT planejava construir no Pantanal.
O Brasil vai só ampliando a sua galeria de heróis tombados na luta em defesa da natureza. Chico Mendes, Dorothy Stang, Dionísio Ribeiro e agora Francisco Anselmo de Barros, ou Francelmo, como era conhecido o ambientalista que, ao contrário dos outros, todos assassinados, pôs fogo no próprio corpo, em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Foi a forma que encontrou, depois de inúmeros protestos, de chamar a atenção do Brasil e do mundo para o que o governador do estado, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, em nome do que chama de progresso, queria fazer no Pantanal Matogrossense. O projeto do governador, contestado por ecologistas e especialistas respeitados e rejeitado pela Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa de MS, 11 dias após a morte do ativista, prevê a construção de 23 usinas de álcool na bacia do alto Paraguai, no norte de MS em plena região pantaneira.
Como conseqüência de seu gesto ainda mais extremado do que o do bispo de Barra, na Bahia, frei dom Luiz Cappio, que fez greve de fome durante 11 dias, no final de setembro, contra o projeto de transposição do Rio São Francisco, Francelmo morreu 24 horas depois na Santa Casa de Campo Grande. Tinha 65 anos, boa parte deles dedicada a proteger a natureza, que considerava um presente de Deus para o ser humano e para as outras criaturas. “Já que não temos voto para salvar o Pantanal, vamos dar a vida para salva-lo”, escreveu ele em uma das 16 cartas que redigiu, antes de se embrulhar em um colchonete e um cobertor encharcados de gasolina e se incendiar. As cartas eram dirigidas à imprensa, aos amigos, ao filho Alan, de 14 anos, à mulher Iracema, com quem estava casado há 42 anos, à sobrinha, pedindo perdão, pois ela ia se casar naquele sábado, a professores, aos ambientalistas, ao pessoal da fundação, e a outras pessoas e instituições.. Pouco apropriado - A morte dolorosa do ambientalista, com queimaduras gravíssimas em praticamente todo o corpo, provocou uma verdadeira trombada entre duas figuras importantes do PT, o governador e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. A ministra não só ligou para a viúva, como soltou uma nota, lamentando o protesto-suicídio do ecologista e deixando clara a sua posição totalmente contrária à construção das usinas. Comovida com o gesto do incansável ambientalista, Marina foi à casa dele, em Campo Grande, apresentar pessoalmente suas condolências à viúva. Lá, conversou longamente com dona Iracema e voltou a afirmar que é contra qualquer tipo de construção do gênero no Pantanal, pois estudos mostram que seriam enormes os impactos ambientais na área. Repetindo uma prática que já se tornou comum entre autoridades petistas, Zeca atacou Marina em público, mal a ministra havia deixado a capital do seu estado. Usou um linguajar, no mínimo, pouco apropriado para um governador: “Antes de vir aqui e falar besteira, a ministra precisaria conhecer o Pantanal”, disparou ele. Na semana seguinte, quando a Comissão de Constituição da Assembléia vetou o projeto por unanimidade, o governador chegou a ser insolente: “A ministra não tinha o direito de se meter em um debate que não conhece”, afirmou ele, esquecendo-se que Marina Silva é a titular do ministério do Meio Ambiente. A batalha de Francelmo para impedir a construção de usinas de álcool no Pantanal, conta Iracema, começou no início dos anos 80, “quando o grupo americano Rockfeller planejava montar a maior usina do Brasil, na região da Bodoquena. Foi uma luta enorme para não permitir. E meu marido entrou nessa luta. Criou, com amigos, a Fundação Para a Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (Fuconams). E, na mesma época, o Comitê de Defesa do Pantanal. Participaram de movimentos e trabalharam duro até que o projeto da usina foi engavetado”. Paraíso poluído – Estudiosos do pantanal são unânimes em dizer que a instalação de indústrias, sobretudo do tipo das usinas de açúcar e de álcool, fatalmente degradará a área, podendo poluir até o Aqüífero Guarani, uma das maiores reservas de água potável do mundo. Não foi a toa que as Ongs ambientalistas SOS Mata Atlântica, Ecoa (Ecologia e Ação), Fórum em Defesa do Pantanal e Rede Pantanal se juntaram e lançaram em agosto último a campanha “NÃO às Usinas de Álcool no Pantanal”. O objetivo da campanha era exatamente impedir que o governo do estado consiguisse a aprovação do projeto que prevê a modificação da Lei Estadual 328, de 1982, que proíbe a instalação de usinas de álcool na Bacia do Alto Paraguai. “Esta lei de 1982 foi resultado de um grande movimento contra usinas realizado na época e agora mais de 80% do Pantanal pode correr risco, se ela for modificada”, explica Alessandro Menezes, presidente da Ecoa e secretário-executivo da Rede Pantanal de Ongs. Para espanto dos que querem a preservação de uma das áreas mais belas e ricas em biodiversidade do planeta, há quatro outros grandes projetos planejados para a região do pantanal: um pólo para processar minério de ferro, outro para retirar fertilizantes e gás de cozinha do gás natural boliviano, uma usina termelétrica e uma hidrovia. Zeca do PT tem resposta na ponta da língua, quando perguntado sobre as críticas que vêm sendo feitos aos projetos: “Não quero ser retrógrado. Não quero ser troglodita. Acho que isso é importante para o crescimento, geração de emprego e modernização do meu estado." Na carta que escreveu ao bispo e padres de Campo Grande, antes de se matar, Francelmo pediu a eles que conscientizem as pessoas da necessidade de se preservar o pantanal. Em outras palavras, que lutem para que as pessoas rejeitem o conceito trágico de modernização do governador.
[01/DEZ/2005]
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