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“A Casa de Deus”
“Ele era um homem alegre, gostava de contar piada. E não era violento. No dia em que se matou, estava normal, como nos outros dias. Antes de sair para participar da manifestação, chegou a ligar para uma das irmãs, em Fortaleza pedindo um remédio para um amigo. Eu jamais imaginaria que ele pudesse fazer uma coisa dessas”. É assim que Iracema Barros, casada com Francisco Anselmo de Barros por mais de quatro décadas, resume o seu estupor com a morte trágica do marido. Quando perguntada como está se sentindo, ela se mostra guerreira: “Depois de ter acontecido uma coisa deste tamanho, você há de imaginar, para uma pessoa que tem 42 anos ao lado de um homem, estou numa situação que não posso nem definir. Só que na hora em que ele deixa uma carta pedindo aos amigos para continuar a luta, pedindo para as pessoas não deixarem acontecer essa coisa terrível que é a instalação de usinas no pantanal, eu me sinto no dever, na obrigação, de arregaçar as mangas e continuar a luta”. A história de Francelmo como ambientalista se confunde com o seu casamento com a baiana Iracema. Os dois se encontraram na Bahia, onde ele, nascido em Fortaleza, no Ceará, passou a trabalhar para uma empresa ligada a um banco suíço que explorava jacarandá, no sul do estado. O manejo cuidadoso do jacarandá pelos suíços encantou Francelmo. “Ele ficou fascinado, porque eles saiam pela mata procurando o jacarandá e mediam o tronco antes de arrancar. Se a árvore era jovem, não arrancavam. Quando encontravam, tiravam a tora com junta de boi para não fazer muito estrago na mata. E para cada árvore que eles tiravam, plantavam uma muda da mesma espécie no lugar. Com isso, deixaram a mata intacta. Meu marido sempre dizia que o mundo é a casa de Deus e os suíços respeitavam isso”, conta ela. Só quando foram morar em Mato Grosso do Sul, ele começou a se dedicar de verdade ao ambientalismo. No início da década de 80, veio o movimento contra a construção de usinas de álcool, que o grupo Rockfeller tencionava construir. Foi quando ele e os amigos criaram a Fundação Para a Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul (Fuconams), da qual era presidente. Desde então, lutava com unhas e dentes contra qualquer projeto que suspeitava fosse poluir o pantanal. Francelmo, que também era jornalista e editou, juntamente com Iracema, durante mais de 20 anos, a revista Executivo Plus, escrevia artigos sobre meio ambiente, que publicava na própria revista ou nos grandes jornais. Ele chegou a lançar um livro – “Terra, até quando?” -, uma seleção de seus melhores artigos. Se o governador tem culpa por esse desfecho triste da vida de Francelmo? Iracema responde: “Meu marido me ensinou a não julgar nem a não condenar ninguém. Mas eu acredito que Zeca tenha culpa”. E explica porque pensa assim: “Meu marido foi companheiro dele. Eles eram amigos antes de Zeca ser eleito governador. Quem o ajudou a fazer o programa de governo na área de meio ambiente foi meu marido. O próprio Zeca participou do Comitê de Defesa do Pantanal, movimento contra a implantação da usina. Ele até usou isso na campanha eleitoral. E depois que foi eleito, ignorou o meu marido” Logo, ela se recompõe e comenta: “ Depois da morte de Francelmo, fiquei meio indignada e fiz alguns questionamentos. Mas, agora, entendo e aceito com muita compaixão o que ele fez”.
[01/DEZ/2005]
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