Nunca procurei um amigo nessa empreitada. Sei que games como o 'Ultima online' giram em volta de comunidades, mas esperava manter os jogadores em contato apenas pelos canais do mercado. Queria consumidores, não companhias. E muito menos um inquilino.
Semanas atrás, um jogador apareceu na porta da minha recente mansão, em Malas. Ele sugeriu montar uma venda em frente à casa. Já tinha uma, mas outra atrairia gente.
Vamos chamá-lo Radny. Ele deve ter digitado errado ao fazer o personagem e essa foi a primeira coisa que me desagradou. A segunda foi a roupa verde-néon que ele vestiu nos vendedores.
Mas o pior de tudo foi a sua presença. Radny contou que tinha vendido sua casa virtual e se afastado do jogo, e precisava de um lugar até recuperar seu dinheiro.
Eu aceitei, mas sem saber direito porque. Gosto da solidão, e me incomodava em encontrá-lo, me cumprimentando com um 'e aí' ou um 'qualé', acompanhado de uma crítica a um dos aspectos do game.
A casa não era mais minha. Mesmo que achasse ter controle sobre ela, inclusive podendo expulsar Radny com um clique no mouse, não via razão para isso. O melhor que podia fazer era lembrá-lo para não se acomodar demais e que o preço das casas tinha caído muito depois do lançamento da última expansão do jogo.
Ele não demonstrou entender os recados e, no final, até gostei disso. Ontem à noite, Radny estava costurando e eu o procurei para comemorar a compra de um 'powerscroll de magia +10' por razoáveis 500 mil peças de ouro. Ele contou que estava fazendo bom dinheiro num mercado próximo. ''Ganhei três milhões no fim de semana. Agora tenho o bastante para te largar''.
E por que não o faz? ''Eu gosto de você cara, e ainda tenho muito a te ensinar'', completou. Era uma brincadeira com um fundo de verdade. Radny me explicou que eu deveria trocar itens raros se quisesse ganhar dinheiro. Gostei da idéia, mas disse que os leilões sempre acontecem quando minha filha chega da creche. ''Quanto você tem no banco?'', ele perguntou.
Semanas atrás eu terminaria a conversa, achando que seria trapaceado. Mas eu começava a confiar em Radny. ''Posso investir parte do seu dinheiro. Fico com 20%''. Fui ao banco e lhe dei 500 mil. Saí para buscar a Lola, sabendo que o leilão começaria em minutos.
Na volta, Radny contou que já conseguira um pequeno lucro para mim. Gostei da notícia. Conversamos mais e ele me contou que tinha 52 anos. Surpreso, comentei: ''eu pensava ser o velho daqui''.
Ele estava brincando - na verdade, tinha 17. Ele me perguntou: ''Você, que viveu os anos 70, fumou maconha?''.
A pergunta era séria. Radny estava interessado em marijuana e era mais do que uma curiosidade. Eu disse que não gostava muito da coisa, mas não neguei que já havia experimentado várias drogas. E comecei a tomar muito cuidado em relação ao que dizia, sendo o adulto da conversa.
Me senti um pouco estranho com a complexidade da relação com outro jogador. Mentor, parceiro de negócios, irmão caçula e inquilino. Radny agora é, mais do que tudo isso, um desafio.