Aproximando o Java dos PDAs

Brasileiro desenvolve software livre que permite que programas com Java rodem em handhelds

Bruno Lopes

Repórter do JB

Felipe Varanda

Guilherme Hazam roda o mesmo programa Java em seus PDAs

Alguns brasileiros são mais conhecidos no exterior do que dentro do país, e o engenheiro de sistemas Guilherme Hazan é um deles. Ele é o líder do projeto de software livre Superwaba, uma máquina virtual Java que roda em computadores de mão. Apesar do conceito de uma máquina virtual ser pouco conhecido por usuários finais, ela é muito valorizada por programadores.

A criação do Superwaba alivia um dos problemas dos handhelds da Palm: apesar deles serem em muitos aspectos tão bons quanto os PDAs da linha Pocket PC, desenvolvedores de software, quando têm a opção, evitam criar programas para os Palms. A razão é simples: o Windows CE que está instalado nos Pocket PCs é parecido com o Windows usado nos computadores de mesa, e um desenvolvedor que conhece o sistema operacional de Bill Gates pode fazer a transição em poucos dias. O Palm OS, apesar de atualmente rodar em diversos processadores, foi concebido para os chips da Motorola e é mais parecido com a antiga versão do Mac OS, da Apple.

- Não tinha experiência em programação no Macintosh, e quando comecei a criar programas em linguagem C para Palm tive um baque inicial grande - conta Guilherme Hazan.

Esse problema pode ser resolvido se os programas forem ser escritos em Java, uma linguagem que muitos desenvolvedores conhecem e é ensinada em praticamente todos os cursos de ciências da computação. Mas não é possível escrever um programa em Java e rodar ele sobre qualquer sistema: o software precisa de algo conhecido como máquina virtual, que fica entre o programa Java e o sistema operacional. No mercado existem máquinas Java para uso em PDAs, como o o KVM, da Sun, e o J9, da IBM, mas nenhuma delas é gratuita nem tem seu código fonte disponível publicamente.

O Superwaba é uma versão aperfeiçoada e estendida de um programa similar, o Waba, criado pelo americano Rick Wild. O surgimento do próprio Waba foi acidental: Rick Wild apostou com um amigo que seria possível escrever uma máquina virtual Java que rodasse em Palms e Pocket PCs e, para ganhar a aposta, desenvolveu o Waba.

Guilherme Campos conta ter conhecido o Waba em 2000. Ele percebeu o potencial do software e começou a aperfeiçoá-lo, até o ponto de criar um novo software, o Superwaba, com pouco do código original. A licença também foi mudada do GPL para LGPL, o que permite a criação de softwares livres ou proprietários usando a plataforma.

Tecnicamente, o Superwaba não é exatamente Java, pois não recebeu certificação da Sun. Mas pode ser chamado de uma máquina virtual ''parecida'' com Java, e ferramentas como Eclipse ou Jbuilder criam aplicativos para Superwaba. A filosofia Java de portabilidade total foi trocada por um enfoque mais pragmático: o Superwaba oferece suporte apenas para Palm OS e Pocket PC para fazer isso com eficiência.

Desde outubro de 2001 Hazan largou o seu emprego e passou a fazer o que muitos consideram impossível: viver do desenvolvimento de um software livre, disponível gratuitamente na internet. Ele trabalha em tempo integral no Superwaba, e boa parte de seus rendimentos vêm de serviços de consultoria e treinamento, que presta a empresas que desejam criar aplicações para PDAs usando Java, e de tutoriais que vende em seu site.

Como benefício colateral, Campos não precisa mais colocar a mão no bolso para comprar PDAs, pois a comunidade de usuários regularmente faz vaquinhas e dá novos aparelhos a ele. A maior parte dos usuários do Superwaba, que compram os tutoriais de Guilherme, moram nos Estados Unidos ou na Europa.

Atualmente, o objetivo de curto prazo do Superwaba é aperfeiçoar a máquina virtual para ela rodar mais eficientemente nos novos processadores ARM de PDAs da Palm, como o Tungsten T. Quem está acostumado a usar PDAs da Palm vê os programas carregando quase instantaneamente, mas os softwares Java demoram até 15 segundos para carregar em aparelhos antigos, como o m100.

- O Superwaba carrega praticamente instantaneamente no Pocket PC, e os novos processadores da Palm também têm esse potencial - explica Guilherme.

Quem deseja experimentar a máquina virtual pode fazer o download dos arquivos para Palm ou Pocket PC, e copiar para o computador de mão o programa VPFinance - o arquivo PDB (que empacota a classe Java) é o mesmo para as duas plataformas.

www.superwaba.com.br

[19/MAI/2003]

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