Mesmo antes de
Enter the matrix, não havia como disassociar o filme dos games, já que a estética apresentada na primeira película foi baseada no entretenimento eletrônico e nos
animes. A pergunta que não quer calar, portanto, é se o jogo vence por si só ou depende da franquia para ser respeitado.
A resposta é um enfático sim. Enter the matrix é brilhante e alcança o seu propósito - colocar o jogador na pele de um dos integrantes da resistência contra as máquinas que escravizam a humanidade. Em contraposição, seus poucos erros são tão primários que quase destroem o resultado final.
No game, o jogador pode encarnar um de dois personagens: Niobe, uma especialista em pilotagem, ou Ghost, mestre das artes marciais. Os controles para os dois são iguais, mas o usuário terá experiências diferentes, dependendo da escolha. Exemplo é a seqüencia no automóvel, em que Niobe está sempre na direção, e Ghost, na defesa empunhando armamentos.
Enter the matrix é composto, quase totalmente, de níveis de ação/aventura em que o avanço é feito a pé. A exceção cabe aos poucos dentro de carros ou na espaçonave de Niobe, pilotada no mundo 'real', fora da matriz.
O objetivo é normalmente exposto na forma de uma seta, com a distância que falta para o seu cumprimento. Os níveis, longos, são divididos em seções, e só ao terminar uma delas o jogador pode salvar seu avanço.
Como previsto, o game é calcado no combate. A Shiny, desenvolvedora do game e de outros sucessos como Sacrifice e a série MDK, conseguiu recriar o ambiente fantástico de Matrix no jogo. Os golpes são sensacionais e montar combinações de ataques é tarefa simples. Nenhum outro jogo para o PC tem lutas tão vigorosas como as de Enter the matrix - fato que fica claro depois do primeiro confronto com os agentes, sentinelas das máquinas que vivem para defender o sistema. Quase imbatíveis, elevam a adrenalina em perseguições espetaculares, obrigando o jogador a fugir desesperadamente.
O game não seria nada, no entanto, se não fosse pelo 'bullet time', ou 'focus', como é chamado no jogo. A tecnologia, criada pelo mestre dos efeitos especiais John Gaeta para Matrix, é um dom dos que controlam a matriz e conseguem 'dobrar' os limites do espaço e do tempo. Em Enter the matrix ela é perfeitamente recriada, com direito a saltar longas distâncias, caminhar pelas paredes, observar e escapar às balas e efetuar golpes que desafiam as leis da gravidade.
A tão falada hora de filme inédito gravado nos sets de Matrix reloaded e Matrix revolutions é cortada e exibida em 'drops' entre algumas das missões. Os vídeos, no formato DivX, inserem o jogador nas viradas do roteiro e não comprometem o andamento da aventura. Os irmãos Wachowski dirigiram também as incríveis animações criadas com o motor gráfico do jogo.
Durante o desenvolvimento do jogo, a Atari enfatizou o 'hacking', uma opção que permitiria ''invadir seu computador'', nas palavras da empresa. Na verdade, o sistema simula um sistema operacional em modo texto (DOS, por exemplo) e permite ao jogador inserir uma série de comandos simples para acessar drives e diretórios que contém imagens, vídeos e músicas. O 'hacking' usa os saves do jogo, é original e foge aos métodos comuns para destravar conteúdo, como senhas e a caça a itens especiais dentro dos níveis.
O som do jogo merece um capitulo especial. Nunca um sistema de 'música interativa' funcionou tão bem num game como nesse. A trilha, a mesma da série de filmes, acelera e freia de acordo com a ação. Os efeitos sonoros são cristalinos e acima da média.
A interface é limpa e não atrapalha. Fica claro que os desenvolvedores quiseram oferecer a melhor experiência possível de combate. Os golpes são fáceis de dominar e a energia e o 'focus' são regenerados automaticamente - o que faz sentido quando o jogador começa a enfrentar adversários poderosos ou em grande número.
Enter the matrix seria perfeito, se não fosse por falhas básicas e imperdoáveis num jogo desse nível. Em certos momentos, a aventura sugere que o personagem se esgueire pelo cenário, mas o faz correndo, já que não há opção para andar. O barulho denunciaria qualquer tentativa de surpresa, mas nesses momentos os inimigos parecem ensurdecer, desbancando o realismo do jogo.
A interface também não permite que as armas secundárias (granadas, por exemplo) sejam guardadas. Como o comando para sua ativação é comum ao de chute, as confusões são previsíveis.
As seqüências no trânsito estão coalhadas de falhas. Os carros podem atravessar postes sem sofrer danos e, ao jogar como Ghost, a Niobe artificial que guia os veículos é risível, lutando contra o jogador para matá-lo mais rápido. Agora é esperar que a Atari libere alguns patches para apertar as porcas do jogo.