A traição virtual se tornou uma prática tão disseminada em vários países, que o assunto já foi tema de um estudo comandado pela psicóloga brasileira e especialista em sexualidade humana, Cristina Martins.
A proposta original era concentrar a pesquisa no Brasil, mas parece que a idéia não foi bem-vinda entre os internautas brasileiros. Nas salas de bate-papo e nos grupos de discussão nos quais Cristina expôs a questão - ''Você considera cybersexo traição ou não? Por quê?''- as respostas chegavam com tom de deboche e brincadeira. Assim, a pesquisadora desistiu de levar adiante seu estudo no Brasil e partiu para os Estados Unidos, onde, segundo ela, já havia vasta bibliografia sobre o assunto.
Através do ICQ e de chats americanos, Cristina Martins procurou por mulheres acima de 21 anos que estivessem dispostas a resolver seu dilema. ''Tive que ficar online esperando as pessoas me contatarem e foi muito interessante. A questão da fidelidade/infidelidade é muito complexa e pessoal e varia de uma cultura para outra. Como na internet a forma da traição virtual é feita através da comunicação escrita, sem contato físico, fiquei intrigada e curiosa para saber se as pessoas achavam isso uma forma de traição ou não, já que a ''norma'' configura como traição quando se tem uma relação física com alguém além do seu parceiro'', explica.
Resultados- Depois de receber 200 respostas, a psicóloga verificou que 58% das entrevistadas responderam que sim, sexo virtual é traição. Elas argumentaram que mesmo não fazendo sexo na vida real com os parceiros virtuais, o cybersex é uma traição emocional e, portanto, deve ser considerado como tal. ''Para essas mulheres, ter fantasias e pensamentos eróticos com alguém que não seja seu parceiro é o suficiente para se considerar adultério''. Na contramão dessa opinião, 21% das entrevistadas afirmaram que sexo virtual não é traição. Segundo elas, a experiência não causa danos diretos ao parceiro e, inclusive, deve ser encarada como uma boa alternativa para melhorar o desempenho da vida sexual ''real''. ''Além disso, essas mulheres acham que pela internet suas fantasias sexuais são totalmente realizadas, ao contrário da vida real, onde seus desejos mais íntimos são reprimidos pelo parceiro'', avalia Cristina.
Outros 21% das entrevistadas ficaram em cima do muro. Disseram que o cybersex pode ser considerado traição somente se as intenções ultrapassarem os limites do virtual. Do contrário, é relaxar e curtir.
Final da história: a monografia foi apresentada no final de 1999 na Universidade de Campinas para a obtenção do título de Especialista em Sexualidade Humana. Ano passado, o trabalho foi encaminhado ao Congresso Mundial de Sexologia, em Paris. Ao retornar do evento, Cristina resolveu fazer nova investida no Brasil e desta vez foi correspondida. Os resultados, no entanto, foram surpreendentes.
Ao contrário dos Estados Unidos, onde a maioria das mulheres afirmou que sexo virtual é traição, aqui nos trópicos 53% das entrevistadas não condenam o sexo virtual e muito menos o consideram uma prática de infidelidade. Enquanto isso, 37% pensam o contrário. Defendem que a intenção de trocar carícias com alguém, mesmo à distância, fere os princípios de exclusividade que regem os relacionamentos. E 2% das voluntárias consideraram o sexo virtual traição no caso da prática ultrapassar as fronteiras da fantasia.
Falta de diálogo- A psicóloga conta que, pessoalmente, nunca passou por experiência semelhante e acredita que quando se chega ao ponto de procurar a internet para sexo é porque falta algo no parceiro ou no relacionamento. ''Não dá para negar que é traição, porque há troca de estímulos, mesmo que virtuais. O melhor caminho é estabelecer um canal de comunicação aberto com o parceiro, discutir plenamente a relação'', aconselha.
Para Cristina, o contraste de opiniões entre os dois países revela como as brasileiras estão encarando sua sexualidade. ''A mulher brasileira está mais aberta, se sente menos culpada em relação a sua sexualidade e ao corpo, além de falar abertamente sobre sexo, o que não acontece nos EUA.'' Ainda segundo a análise da psicóloga, a mulher brasileira não está mais ligada ao casamento como profissão, o que lhe dá a liberdade para escolher o parceiro que melhor a completar em todos os sentidos.
Mas, o que leva alguém a procurar na internet a saída para as falhas do relacionamento? O contato físico, olho no olho, não seria mais eficaz e excitante nessas horas? Cristina Martins responde a questão com base nos princípios básicos da aproximação entre homens e mulheres, que apesar de tradicionais, estão sendo resgatados pelo convívio cibernético.
''A internet propicia a volta do jogo da sedução, da conquista, que se perdeu na vida real. Pela rede as pessoas flertam, conhecem o outro pouco a pouco, o que não acontece mais nos relacionamentos atuais, onde o sexo virou pura banalidade''.