Desenhos animados discutem temas como antivírus, download e megabytes, ensinando o que é o mundo pontocom
Todo santo dia é a mesma coisa. Às 15h30, quando chega da escola, Victor Moreira, de 11 anos, joga a mochila na cama e, quando não tem dever de casa, como faz questão de frisar, vai correndo se esparramar na frente da televisão. Não para acompanhar socos e pontapés dados por ninjas de olhos grandes em monstros verdes e babões, mas para conhecer cada vez melhor o universo pontocom. Victor é, ao lado de uma penca de crianças, fã de desenhos e programas com nomes como
Reboot,
Ciberkids,
Crash Zone e
Autopista, que têm invadido a grade de canais a cabo destinados ao público infantil com o mesmo objetivo: ensinar de forma divertida a lidar com o computador.
O pai de Victor, Renato Moreira, aprova a televisão no papel de professora de informática. ''Deviam tirar do ar desenhos violentos e que não educam nada. Para os pais, é maravilhoso chegar em casa e ver que o filho, num momento de entretenimento, aprendeu coisas ligadas à informática. Aposto que isso influencia positivamente seu desempenho na escola'', diz.
Inteligência artificial - Entraram recentemente nesse filão superpotências infantis, como a Disney, que no Disney Channel www.disneychannel.com.br exibe diariamente o Crash Zone - desenho passado num site onde cinco jovens são pagos para projetar e testar jogos para computador, navegar pela internet e interagir com inteligência artificial (é isso mesmo) -; a Fox Kids www.foxkids.com.br, que adicionou na sua grade o Autopista - cuja narrativa é baseada numa corrida virtual de carros entre o protagonista e um vírus com formas de vilão e cara de mau - e a Discovery Kids www.discoverykids.com.br, que há três anos exibe a série Reboot, cujas imagens são geradas por computador com animação em 3D e na qual a ação se passa numa cidade batizada de Mainframe.
Lá, a vida é controlada por um usuário que pode querer jogar a qualquer momento. Quando isso acontece, um cubo desce do nada e engole um setor da cidade, prendendo seus moradores no jogo. Os episódios ocupam diariamente a programação do canal, mas em horários nada infantis: de segunda a sábado, às 2h e às 22h30. Aos domingos, às 2h e às 16h.
Destinada a um público com idades entre 10 e 12 anos, a série acabou caindo no gosto de um bando de marmanjos e é a queridinha de muitos rostos famosos de Hollywood, como Gillian Anderson, de Arquivo X. Ela emprestou a voz para um personagem no episódio Trust no One, que apresentou a história de dois agentes, Fax Modem e Data Nully, investigando o misterioso desaparecimento de alguns sprites (cidadãos da cidade de Mainframe), supostamente causado por um invasor da web. Complexo? Não para a criançada.
E nem para a professora Simone de Paula, responsável pelo departamento de informática do colégio Marista São José no Rio. ''Estou gravando alguns episódios para depois selecionar os que vou trazer para a sala de aula. Quero fazer atividades baseadas no Reboot. O desenho é o mundo deles, fala sobre internet, download e vírus, tudo na linguagem que eles estão acostumados. Hoje, o computador já faz parte do cotidiano de muitas crianças. É maravilhoso elas aprenderem de forma lúdica'', diz ela. ''Um dos episódios que mais me chamou a atenção foi o que ensinava a não falar com estranhos na web, que é uma preocupação de muitas mães hoje em dia.''
Notas musicais - Também fazem parte da grade do Discovery Kids o desenho Twipsy - sobre um menino que passa por uma série de aventuras dentro do computador e contracena com um personagem chamado Correio Eletrônico - e o programa Ciberkids, apresentado por crianças de carne e osso. Na série produzida pelo canal, a tecnologia só aparece nas matérias feitas por repórteres-mirins. A intenção é fazer com que os pequenos percebam a tecnologia que existe embutida na música, nos aviões, na indústria pesqueira etc... ''Nosso objetivo é criar uma comunidade cibernética, fazer com que as crianças da América Latina se encontrem na web, troquem informações e experiências'', conta a diretora de programação do canal, Beth Carmona.
Atualmente, as crianças que assistem ao Ciberkids na tevê podem participar dele através da internet, dando notas de zero a dez aos sites que encontram navegando. ''O bom do programa é que ele dá dicas de sites bons e ruins. Gosto de navegar pelos que tiram nota dez, claro'', diz Victor Moreira, aquele do primeiro parágrafo.