|
|
Mirisola, pomo de discórdia
Autor de orelha rebate resenha sobre 'Joana a contragosto'
Ricardo Lísias
[07/JAN/2006]
Além dos equívocos de conceito literário, o que mais incomoda na resenha que Gustavo de Almeida publicou sobre Joana a contragosto, último romance de Marcelo Mirisola, é o tom pedante: escrito com ar blasé, por uma pessoa que conheceria como funciona o verdadeiro e belo amor, o texto parece querer ensinar alguma coisa a certos ''cronistas e ditos especialistas em literatura'', que teriam elevado o livro de Mirisola ''à condição de masterpiece''. Almeida não diz o nome de tais cronistas e especialistas. Como, a propósito, também não diz meu nome, ao citar um trecho da orelha que escrevi para Joana a contragosto.
Gustavo de Almeida me chama de ''resenhista'', cita um trecho do meu texto e, certamente com um sorriso matreiro, arrogantemente acredita que me refuta. Pois bem, eu tenho nome e sobrenome.
Agora vejamos como Gustavo de Almeida me refuta: escrevi na orelha que Marcelo Mirisola teria redigido possivelmente ''o mais belo parágrafo da prosa brasileira dos últimos anos''. Trata-se das últimas linhas de Joana a contragosto. Gustavo de Almeida não concorda, por que John Fante já teria ''dado as costas ao deserto também pela desilusão amorosa'' (sic). Enfim, se o autor de Pergunte ao pó fez o mesmo que Mirisola ou não (ele não fez), não interessa muito: importa notar que o resenhista acha que John Fante é um autor da literatura brasileira dos últimos anos.
Gustavo de Almeida também apresenta dois ''defeitos'' do livro: há no romance um bar chamado Lamas onde o narrador toma uma cerveja e também uma viagem de ônibus em que ele avista uma praça. O resenhista descobriu que há um bar de verdade com esse nome que não serve cerveja, apenas chope. E aí concluiu que o bar do livro é o bar com o mesmo nome...
Não preciso mostrar o ridículo do argumento, até por que se Gustavo de Almeida acha que John Fante é brasileiro, o que não irá pensar, do alto da sua inteligência, sobre a ficção? Enfim, pelo seu raciocínio, ela não existe: é apenas uma notícia de jornal em que se não houver identidade de nomes e pontos geográficos, algo não funciona bem. Nem no século 19 algo assim teria cabimento. É preciso observar que a ficção não tem nenhum compromisso com a realidade.
O pior do tipo de arrogância expressa na resenha é o ar de bom moço de seu autor: uma ''mútua masturbação'', que ele atribui ao amor descrito no livro, não poderia ser assunto digno de um romance. Bonito mesmo é o amor vivido ''no corpo e na alma dos possíveis nubentes''. Nubentes?! A família brasileira agradece.
Enfim, Gustavo de Almeida quis ser sabido e esqueceu que a prosa de ficção é, a princípio, a ordenação de algumas palavras em uma frase, depois a da frase em um período, depois a do período em um parágrafo. Analisá-la é, no mínimo, observar como esses parágrafos se relacionam para criar a forma reivindicada pelo livro. Depois, é preciso ver como essa forma se relaciona com as outras já criadas e também como ela articula um discurso. Naturalmente, um pré-requisito para futuros professores é não faltar às aulas de estudos básicos.
Gustavo de Almeida tentou matreira e arrogantemente me dar uma aula, refutando-me com o argumento de que John Fante é brasileiro... Para o resenhista, Joana a contragosto é um livro chato. Chato mesmo é cair do cavalo desse jeito.
Ricardo Lísias é escritor, autor, entre outros, de Duas Praças (editora Globo) e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo.
Resposta de Gustavo de Almeida: Em nenhum momento da resenha foi dito que o italo-americano John Fante fosse brasileiro, apenas foi registrada a semelhança dos estilos. Nego também que tivesse a intenção de dar aula ao sr. Ricardo Lísias. Quanto ao Lamas servir chope e não cerveja, são apenas detalhes relativos à verossimilhança, que não exclui de maneira nenhuma a ficção. Podemos escrever um conto que se passe dentro de um campo de futebol, mas o bom senso recomenda que na ficção a bola seja redonda. Apenas isto. Lamento o tom agressivo e gratuito de alguém com formação acadêmica de nível tão elevado.
|
|
Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil.
É proibida a reprodução
http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernos/ideias/2006/01/06/joride20060106006.html
|