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Senhor História

Discursos de Churchill explicam um século

Marcelo Ambrosio

Hitler, Nehru, Ghandi, Chamberlain, Bismarck, Hiroíto, Roosevelt, Stalin, entre outros. O século 20 foi pródigo em protagonistas do que é considerado o período mais violento da história da civilização. Porém, nenhum foi tão indispensável à compreensão desses momentos quanto Winston Churchill.

A biografia de um dos maiores líderes mundiais já tinha sido objeto de análise. Porém, a melhor forma de se compreender a dimensão extra-humana do personagem deve ser através de suas idéias, mais do que de suas ações. Em Jamais ceder: os melhores discursos de Winston Churchill (Jorge Zahar Editor) encontrou-se a forma ideal: unir a verve especial que dava aos textos do premier emoção e impacto direto a um conteúdo capaz de destacar e cristalizar grandes momentos da vida política mundial, eternizando-os.

Poucos homens tiveram tanta participação no destino do Oceidente e souberam fazê-lo com tanta propriedade e antevisão. Ajuda muito o fato de que Churchill sabia aliar a objetividade e a ironia intrínseca aos jornalistas com a astúcia dos políticos mais habilidosos. Atento à modernidade, desde cedo percebeu o poder da mídia. Imaginava, em cada discurso, por exemplo, que do outro lado do microfone estava um casal comum, atento às suas palavras. Por idéia sua, repetia nos estúdios da BBC as falas que apresentava na Câmara dos Comuns. Assim, tinha uma oratória que alcançava milhões embora os encantasse um a um.

A ordem cronológica dos textos, organizados pelo neto e homônimo há cinco anos, lembra um fio. Puxando-se o novelo, vai-se passando pelas principais crises. E se consegue perceber que na maioria a atuação do premier agregou algum valor.

A edição brasileira ainda tem a vantagem de trazer uma ótima apresentação a cargo do professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Arthur Ituassu. Também são dele as notas que contextualizam cada discurso. Essa introdução é essencial para transportar o leitor ao momento do tempo cristalizado nas frases.

Para Ituassu, Churchill é o homem que soube transformar o Império britânico em uma idéia e nessa passagem, a instituição ganhou a eternidade.

É possível compreender os passos e decisões, algumas duríssimas, ao longo de duas guerras mundiais. O auge é no chamado melhor momento, no início dos anos 40, quando ao congregar o espírito da nação em torno da resistência ao fanatismo nazista – “nada tenho a oferecer exceto sangue, trabalho, lágrimas e suor” – reviveu a vocação secular das ilhas britânicas para superar as ameaças.

Mesmo depois do fim da II Guerra, Winston Churchill, já abatido pela idade, continuou coerente. Lutou pela construção das Nações Unidas e por uma posição na nova geopolítica que se desenhava na qual a Grã-Bretanha, novamente, emergia como centro de resistência ao avanço do comunismo, na Guerra Fria.

O encerramento é uma impressionante manifestação de reconhecimento aos Estados Unidos, em 1963, quando o protagonista, já no fim da vida, pede ao neto que o represente na cerimônia de recebimento do título de cidadão honorário dos Estados Unidos, outorgado por JFK. A admiração pela América acompanhou toda a carreira política de Churchill, tanto pelos princípios e relação histórica com uma ex-colônia, quanto pelo reconhecimento à força econômica que os EUA se tornariam.

O trabalho também preenche lacunas ao destacar passagens da vida do protagonista que, embora relevantes, acabaram ofuscadas pelo papel nos conflitos. Pouca gente sabia, por exemplo, que o futuro primeiro-ministro começou a escrever depois de ficar como refém na África do Sul, em 1899. O então jornalista fazia uma reportagem sobre a guerra dos Bôeres e acabou capturado. Fugiu de um campo de concentração em Pretória e, depois de vagar por dez dias, conseguiu chegar a Durbam, onde foi recebido como herói.

Há, ainda, a preocupação com os excluídos em uma sociedade cujo fulcro eram os princípios econômicos liberais. Churchill, desde cedo, cobrava a proteção aos efeitos do fracasso em um modelo totalmente voltado apenas para premiar só o sucesso. Segundo ele, a organização da sociedade girava em torno da seleção competitiva, cuja herança, preconizava, era um barbarismo que só um sistema social poderia minorar. Sendo o ser humano coletivista e individualista ao mesmo tempo, dificilmente visões que privilegiam mais um ou outro iriam triunfar.


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[03/DEZ/2005]


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