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Água ao moinho neoliberal
Pensamento do economista Celso Furtado ganha uma abrangente e aprofundada biografia intelectual, pelas mãos do escritor mexicano Carlos Mallorquin
Carlos Pinkusfeld Bastos
Economista
Celso Furtado: um retrato intelectual
Carlos Mallorquin Contraponto 366 págs, R$ 42
Não seria exagero dizer que, nos últimos dois anos e meio, o humor da maioria dos economistas brasileiros que seguem a tradição crítica latino-americana oscilou entre perplexidade, desalento e profundo mal-estar. Em momentos assim, a reflexão teórica, ao suspender o foco analítico da balbúrdia do dia a dia, proporciona um referencial que ilumina o próprio entendimento da conjuntura. Nada melhor, então, que mergulhar na evolução da obra de Celso Furtado, patrono do pensamento crítico brasileiro, nesse esforço de compreensão do presente e avanço da heterodoxia brasileira, no futuro. Celso Furtado: um retrato intelectual, de autoria do mexicano Carlos Mallorquin, é uma importante contribuição nessa direção. O trabalho de Mallorquin é completo e minucioso, apresentando o pensamento de Furtado ao mesmo tempo de forma abrangente e aprofundada. Uma biografia intelectual como essa tem, entretanto, intrinsecamente uma grande qualidade e uma grande dificuldade: por um lado, garante ao leitor um livro de referência para a obra de Furtado; por outro, pode deixar este mesmo leitor perdido em meio a uma produção prolífica e contínua, que durou cerca de meio século. O livro de Mallorquin certamente se dirige mais a iniciados que iniciantes. Entretanto, estes, vencidos os desafios analíticos propostos pelo autor, têm como recompensa uma instigante - tanto pelos seus acertos como seus erros - introdução à reflexão heterodoxa sobre desenvolvimento.
A Furtado devemos um clássico no melhor sentido do termo, Formação econômica do Brasil, que, com justiça, lhe assegura o papel de pioneiro entre os economistas desenvolvimentistas brasileiros. Seu livro clássico desafia a definição irônica dessa expressão, obra muito citada e pouco lida; e representa até hoje referência para o estudo da formação econômica brasileira por aplicar rigorosamente o método de análise histórico-estrutural para explicar o desenvolvimento econômico. Quase 50 anos depois de seu lançamento são naturais revisões críticas, incorporando as mais recentes contribuições da historiografia. Entretanto, o essencial e o melhor de Furtado estão nesse livro: sua capacidade de integrar um esquema analítico econômico com os fatos históricos e as condições sociais vigentes que caracterizam o seu método de análise estruturalista. Nele estão também contidos os elementos básicos da formulação cepalina que busca identificar os componentes que determinam a dinâmica do crescimento da economia e seus componentes de limitação ou restrição, com ênfase especial para a tendência ao desequilíbrio externo latino americano. É nesses momentos que Furtado alcança seu maior brilho, em contraste com certas limitações que surgem quando se dedica à exploração mais teórica. Nesse ponto é que a estratégia expositiva que Mallorquin assume explicitamente é deixar ''Furtado falar''. Se, por um lado, isso garante a fidelidade necessária a uma biografia intelectual, por outro não contribui para esclarecer pontos cruciais da obra do autor. Um bom exemplo disso pode ser visto quando se discute a noção de excedente e sua apropriação nos capítulos 7 e 8. A forma como Mallorquin apresenta a argumentação de Furtado sobre a noção de excedente envolve vários níveis analíticos, sem que seu conteúdo estritamente lógico-econômico fique claramente explicitado. O mesmo para a crítica aos modelos chamados ''convencionais'' de crescimento econômico: não se sabe se são criticados seus fundamentos lógico-teóricos ou a necessidade de incorporar elementos sociais, políticos e históricos às suas variáveis exógenas. Se ao economista treinado essa confusão pode significar apenas uma fraqueza do livro, a um iniciante pode estabelecer uma barreira de difícil transposição que compromete o esforço de entendimento geral da mensagem de Furtado.
O esclarecimento a respeito do nível de crítica que é feito sobre os modelos macroeconômicos de crescimento é fundamental para compreender o cerne do pensamento furtadiano que se baseia na apropriação de parte do excedente social para o gasto em consumo de luxo. Este, além de reduzir a poupança da economia, e com isso o potencial de acumulação, cria uma estrutura industrial que, ao absorver pouca mão-de-obra, perpetua um sistema econômico heterogêneo e que não incorpora parcelas relevantes da população ao mercado consumidor. Esse mesmo processo estaria no centro do atraso da região Nordeste. Assim, a reflexão de Furtado - após, num primeiro momento, acreditar que o sucesso da industrialização poderia trazer a superação do atraso na América Latina - se torna, até certo ponto, pessimista: como estava sendo levada a cabo, a industrialização não resolveria os problemas da maioria da população. A superação desse verdadeiro beco sem saída histórico se dá pela própria construção da nação, ou de um projeto nacional em que a industrialização e a pauta de consumo a ela associada seriam capazes de incorporar o conjunto da sua população e não apenas uma elite. Esse tipo de reflexão de Furtado tem sido alvo de crítica e revisão por parte da literatura heterodoxa latino-americana, e brasileira em particular, ainda que Mallorquin a ela não faça referência. Para quem pretende refletir sobre o futuro do pensamento crítico da América Latina cabe, então, uma pergunta importante: não teria a crítica furtadiana ao desenvolvimentismo tradicional levado, ainda que não intencionalmente, água ao moinho neoliberal que fez tábula rasa do Estado nacional desenvolvimentista? Se isso é verdade, não cabe refletir sobre os reais destinos que o desenvolvimento brasileiro poderia ter tomado se não fosse a dramática crise externa dos anos 1980 seguido do ''tsunami'' liberal dos anos 1990? Essas são algumas das perguntas fundamentais postas a quem se propõe a continuar seguindo a tradição crítica latino-americana. Para tentar respondê-las, nada melhor que o reexame cuidadoso, mas não reverencial, da obra de um de seus mestres.
*Professor adjunto de Economia da Universidade Federal Fluminense
[03/DEZ/2005]
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