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Sátira sobre a esquerda tradicional
Paquistanês fala sobre a campanha eleitoral de Lula
Duílio Gomes
[03/DEZ/2005]
Redenção
Ele é um escritor paquistanês que vem chama ndo a atenção pela qualidade de seu texto e por ser um intelectual sempre pronto a palpitar em arte, cultura e política internacional.
Debochado, ateu, o romancista, historiador e jornalista Tariq Ali - um dos editores da New Left Review- deixou o Paquistão aos vinte anos de idade e viajou para a Inglaterra, matriculando-se na Universidade de Oxford. Descobriu-se depois que havia sido um tio seu que o despachara para lá, preocupado com a iminência de sua prisão por liderar manifestações de rua contra a ditadura paquistanesa.
Politizado desde a juventude, Tariq Ali, hoje aos 6l anos de idade, continua com a língua afiada contra tudo o que o incomoda e já esteve algumas vezes no Brasil. Participou da Bienal Internacional do Livro em São Paulo, de encontros culturais no Rio, e do Fórum Social de Porto Alegre.
O Brasil está presente em seu mais recente romance lançado dessa semana, Redenção, traduzido por Roberto Muggiati, pela Record, que já publicou alguns de seus títulos.
Apesar de ser um esquerdista desde sempre, Tariq Ali satiriza, aqui, a esquerda tradicional e o comunismo ortodoxo, desenvolvendo uma trama onde o protagonista é um velho líder trotskista, Ezra Einstein. Este, em Paris, adota hábitos que repete diariamente, como um relógio - ler os jornais Die Zeit (que ele considera o diário burguês mais sofisticado do planeta), o Financial Times e o Le Monde. Pela sua rotina, o jornal alemão é sempre lido durante o café da manhã, o inglês ao almoço e o francês após o jantar. Ezra frequenta diariamente, também, a livraria do PSR - Parti Socialiste Révolutionnaire, que possui intelectuais filiados trabalhando no Le Monde e operários simpatizantes nas fábricas da Renault. No Natal de 1989, Ezra continuava morando em Paris quando o ditador romeno Nicolau Ceaucescu foi preso e executado. O inferno astral de Ezra tem início e se agrava com a derrocada do bloco comunista e a queda do Muro de Berlim.
Deprimimido e com suas bases ideológicas balançadas, Ezra convoca, às pressas, um Congresso Mundial de Emergência, que acaba trazendo-o ao Brasil, país onde nascera sua jovem amante Maya. Aqui ele divide o palanque, em São Paulo, com o então líder operário Luís Inácio Lula da Silva, em campanha para presidente da República.
''As pesquisas de opinião'', relata o autor na primeira metade do romance, ''indicavam Lula numa disputa cabeça-a-cabeça com o candidato da direita e a multidão estava num ânimo exaltado. Ezra havia falado numa mistura de espanhol e português e entusiasmara Lula e a platéia com sua cultura política incrivelmente ampla. O encontro fora um evento misto e um grupo de cantores brasileiros havia brindado a multidão com canções compostas recentemente.''
No Rio, Ezra namora Maya na praia de Copacabana. Ela o excita por ser jovem, atraente, e se vestir de forma despojada - jeans desbotados e uma camiseta Lula-para-Presidente. Ezra lhe propõe casamento e ela aceita. ''Os amigos dela, para não mencionar seu amante, ficaram totalmente chocados. Viam Ezra como um capão velho e roliço que era também um trotskista. Maya nunca pôde explicar a eles ou a ninguém mais, mas estava incrivelmente feliz.''
Um outro personagem brasileiro, padre Pedro Rossi (''cujas teses iluminadas sobre a Teologia da libertação o haviam colocado em sério conflito com o Vaticano'') surge em Redenção. Nos anos 60, Rossi estudara em Paris com Régis Debray. No Brasil, em plena ditadura militar, ele irá participar do seqüestro do embaixador alemão ocidental e descobrir que ele era um social-democrata culto ''que sabia mais sobre Marx do que os seus captores...''
Lulista de primeira hora, hoje Tariq Ali acha que o presidente decepciou. ''O governo do PT perdeu uma grande oportunidade ao deixar de ouvir o povo que o elegeu para escutar o FMI e o Banco Mundial'', disparou recentemente, acrescentando que Lula é a ''versão tropical de Blair''. Outro alvo - este, mais constante - de sua indignação política é o presidente Bush. O escritor considera a política intervencionista americana um fator de risco para a segurança do planeta. Ele também não perde a oportunidade de fazer o discurso anti-globalização e o seu nome está cotado para concorrer a um dos próximos Nobel de Literatura.
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