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Admirável mundo novo de Ishiguro
Autor japonês desmonta sociedade em fábula com ares futuristas
Sergio Mota*
Ensaísta
Não me abandone jamais
Kazuo Ishiguro Companhia das Letras 344 págs, R$ 45
O que sustenta a densa elaboração de Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, é a habilidade em descrever o passado. À medida que o relato vai ganhando forma, o tom de historinha vai incorporando um fluxo de consciência que causa progressivo estranhamento e enche de curiosidade o leitor. As memórias de Kathy, a narradora do romance, evocam Hailsham, o internato onde cresceu, no interior da Inglaterra. O texto se debruça em descrever com perfeição os adolescentes que estudam na tradicional escola, os professores e o cotidiano melancólico desses personagens. É o tipo de narrativa que descreve um mundo de perfeição que vai se desmantelando aos poucos, a fim de revelar uma narrativa nada convencional. As reminiscências da narradora divulgam pistas cuidadosamente orquestradas que o leitor vai arregimentando em busca do desvendamento do enigma. Há na engenharia do romance uma arte de saber ocultar e revelar aos poucos, que expõe um controle narrativo e faz o texto parecer mais que uma história policial tradicional. Mais que um romance de gênero, o livro é perfeito no uso da omissão, do não-dito, na estrutura lacunar que consegue transformar uma história aparentemente sem história em um romance denso, como se às vistas do leitor saltasse um livro que até então não havia dito a que vinha. O relato da narradora nunca é isento e muitas vezes acarreta ainda mais dúvidas. Diante de tantos senões, a narrativa, que a princípio se construía dentro de princípios memorialistas, vai se transformando em uma trama de ficção científica surpreendente, que descreve clones e transplantes de órgãos. Essa aparente mudança de rumo, ao invés de transformar a história em algo inverossímel e forçado, revela um romance sobre a finitude e a perda da inocência. A verdade sobre o que está acontecendo na tradicional escola aparece no formato de algo terrível, que desmonta aquela aparente atmosfera de tranqüilidade que domina as memórias da narradora. Aparentemente, o livro se passa na Inglaterra dos anos 1990, e possui certa semelhança com essa época e lugar. A narrativa traduz um estado de espírito que rechaça a contemplação e almeja o pragmatismo absoluto, principalmente nas teses veladas sobre clonagem, cópia perfeita, ideologias totalitárias, ética médica, linha de produção, material genético e temas afins. As pistas acumuladas na decifração do mistério que envolve a tradicional escola e seus alunos especiais são reunidas nas páginas do romance diante de um leitor estupefato, compondo uma espécie de escancarada poética do fragmentário. Como as memórias da narradora não se dão a conhecer linearmente, o texto parece uma série de rascunhos que temem o desfecho, desconfiam da finalização, trabalham com uma convenção do inconcluso, como se as explicações reunidas para explicar as fissuras na aura idílica das memórias de Kathy ficassem sempre no campo da conjectura, onde, a princípio, tudo se comunica. Conceitualmente, o texto é tabuleiro de uma obra em movimento linear e evolutivo, cujo objetivo é o desfecho que justifica tudo. Uma outra linha narrativa é a discussão se o que é cientificamente possível é eticamente viável. Mesmo que explicitamente queira fugir dessa roupagem, o romance pode ser lido como uma fábula de ares futuristas que relata uma sociedade completamente organizada, que vai sendo desmontada diante do leitor. Em histórias de clones e transplantes de órgãos, sempre surgem questionamentos éticos e mesmo existenciais, que quase sempre beiram o clichê: haveria limite para o desenvolvimento humano? Para onde caminha a humanidade? Até que ponto o homem é senhor de si? Ishiguro não está preocupado em evidenciar essas preocupações. Sua intenção é profetizar, sem alarmes apocalípticos, uma civilização de excessiva ordem em que todos os homens são controlados desde a geração por um sistema que alia controle genético (predestinação) a condicionamento mental, o que os torna dominados pelo sistema em prol de uma aparente harmonia na sociedade. Pontos convergentes dessa temática estão no clássico romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e, mais recentemente, no filme Matrix, que explora a perspectiva futurista numa dimensão virtual. No filme, os indivíduos também são decantados de incubadoras, mas tudo se passa na mente humana. A realidade não existe, pois tudo se torna virtual. Os homens gerados nas incubadoras são meio máquinas, como as castas baixas de Huxley. Porém, há uma inversão: não são mais as máquinas que são programadas pelos homens e sim os homens é que estão sujeitos à dominação da máquina e mantidos alheios a essa realidade. Assim como Matrix, o romance questiona se o nosso mundo é real ou se estamos vivendo o imaginário na mente de algum computador central. Ambos têm em comum a dominação do espírito humano, determinado por fatores genéticos e condicionamento constante, controlada pelos donos do poder. O que difere Matrix de Não me abandone jamais é que lá o mundo não está sendo governado por homens e sim por máquinas, tendo como matriz o computador. Todos vivem dentro de uma ordem estabelecida, mas não por alguns homens em detrimento dos outros e sim pelo computador que governa. Guardadas as proporções, essas ''fábulas científicas'' guardam entre si um ponto de convergência: apontam para desumanização do homem, morte do indivíduo, cada um em seu contexto. Assim como as teses de Huxley, Ishiguro critica a substituição das pessoas por máquinas, de uma forma diferente: substituindo o lado humano, os sentimentos e emoções, por sensações programadas. Os seres humanos são produzidos em linhas de montagem como os produtos genéricos e condicionados a aceitar uma série de dogmas sociais, são padronizados e, no entanto, continuam presos a dogmas, embora estes mudem de uma sociedade para outra. Não me abandone jamais é a descrição de um pesadelo distópico. A questão aqui é que a idéia de não sermos capazes de reconhecer a diferença entre realidade e ilusão não é filosoficamente nova. O livro vai além. Com a sobreposição pós-moderna do ''fim da história'' pela total disponibilidade do passado em memória digital, nesta época de utopia atemporal como experiência ideológica do dia-a-dia, a utopia se torna o anseio pela realidade da própria história, pela memória, pelos traços do passado real, a tentativa de sair da cúpula fechada e sentir o cheiro da deterioração da crua realidade. Não me abandone jamais dá toque final a essa reversão. *Sérgio Mota é professor de Comunicação Social da PUC-Rio.
[03/DEZ/2005]
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