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Notas e análises da história imediata
Lula depois de Lula
Candido Mendes Garamond, 178 páginas R$ 32
Memorial do escândalo Entre excessos e acertos, à imprensa o Brasil deve muitos dos fatos que emergiram à superfície durante 2005. Coube a jornais, tevês e revistas, com o providencial apoio de fontes interessadas ou não (como é do jogo), revelar ao país que havia dinheiro sem origem correndo e voando pelo país - em contas, malas e cuecas. Também se expuseram as feições do mensalão. Da sucessão de notícias, furos jornalísticos e radiografias dos escândalos, nenhum veículo pode hoje celebrar o mérito principal. Dezembro chegou com a convicção generalizada de que todos os principais jornais e revistas revelaram suas armas, conforme se vê em Memorial do escândalo, de Gerson Camarotti e Bernardo de la Peña. Com um grave equívoco: omite o jornal que primeiro publicou uma das razões da crise, o mensalão. Em setembro de 2004, afinal, o Jornal do Brasil formulava a gravíssima denúncia: fora instituída a prática de pagamentos regulares a parlamentares da volátil ''base aliada''. O que faltara ao JB meses antes a Folha de S.Paulo conseguiu, em junho deste ano: uma fonte que assumisse, publicamente, a existência do mensalão. As duas entrevistas de Roberto Jefferson mudaram os rumos das investigações e evitaram que o assunto sumisse pelos recuos de parlamentares que confirmaram a história aos repórteres do JB. Jefferson motivou-se a falar depois que a revista Veja divulgou imagens e diálogos extraídos de uma fita gravada clandestinamente na sala de Maurício Marinho, chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios. Marinho contou que a instituição fora fatiada entre partidos governistas. O setor que administrava fazia parte da capitania do PTB. Ali, mandava e desmandava o deputado Roberto Jefferson. Camarotti e De la Peña propõem-se a contar ''os bastidores da crise e da corrupção no governo Lula''. Incluem-se na série da Geração Editorial intitulada ''História agora'', uma versão nacional dos instant books americanos. Uma operação de risco. Investigações ainda em curso, personagens não julgados ou mesmo indiciados, desfechos inexistentes, interrogações em aberto, tudo se soma numa lacuna inevitável no jornalismo diário ou semanal, mas demasiadamente perigosa quando as informações são compiladas em livro. E livros-relâmpagos são quase sempre incapazes de corrigir os defeitos da imprensa. Há, no entanto, o mérito de compor - como o próprio título sugere - o cenário geral das denúncias que puseram em xeque PT e governo. Com um veio semelhante, porém focado na análise de fundo, é o livro do cientista político Candido Mendes, Lula depois de Lula. O Brasil se acostumou a dois tipos de análise política: a crônica diária de eventos, da qual o jornalismo é devoto, e os documentos de conjuntura, comuns na vida acadêmica. Candido Mendes tem misturado as duas tradições. Fez isso em Lula: a opção mais que o voto e Lula: entre a impaciência e a esperança, para citar duas obras dedicadas ao atual presidente, e repete o modelo agora. Ele o chama de ''história imediata'' - a forma que o professor encontrou para observar os fatos da pequena política com olhar graúdo. Difere-se do instant book , avisa Candido, pois o que está em jogo não é o flagrante da hora, mas uma interpretação do processo político. Do livro extrai-se uma perspectiva mais otimista do que, por exemplo, da ''esperança estilhaçada'' de Augusto Nunes. Otimista em relação ao papel do presidente Lula e às possibilidades de manutenção das expectativas sobre o petista, a despeito de escândalos como o mensalão ou do que considera uma ''investida moralista''. Para o cientista político, o denuncismo é a forra do Brasil alijado na eleição de 2002 ou dos neolulistas. A classe média, em especial, é o exemplo desse moralismo, rompido de maneira irrecuperável com o PT. Um terreno inseguro, estimulador das tentativas de vingar a idéia de um impeachment do presidente Lula - felizmente, para Candido Mendes, infrutíferas. A oposição, afirma, vive uma nostalgia lacerdista, no qual não faltam o oportunismo político clássico da direita brasileira. Mostra disso é que Roberto Jefferson transformou-se no vingador da moralidade pública. O otimismo de Candido Mendes encontra-se na identificação da ''exaustão da crise''. Segundo ele, ''o país sai de outubro de 2005 [período dos últimos acertos do livro]reassentado no impulso da chegada de Lula ao Planalto. E é difícil que novos escândalos logrem-se somar-se à tarrafa de espantos já trazidos ao horizonte nacional, definidor do pleito futuro''. A crise, para Candido, exauriu-se. Perdeu o seu potencial de desestabilização política imediata no país. Deixou o presidente Lula como refém, mas não tornou a oposição beneficiária dos escombros. O que não impede a evidência de determinados riscos eleitorais diante dos poucos avanços frente às injustiças estruturais vigentes no país. A esperança frustrada ainda é a principal ameaça à reeleição de Lula e à permanência do PT no poder. E ganharia se o país adotasse o instituto do recall, mecanismo adotado, por exemplo, na Venezuela, no qual o eleitorado é chamado a referendar ou não a presença do presidente no poder. Candido, convém lembrar, enxerga a conjuntura política sob a perspectiva social-democrata. Diria que não a da prática tucana, revelada nos oito anos do mandato de Fernando Henrique Cardoso, mas aquela que encantou o mundo logo depois da Segunda Guerra - e hoje esquecida mundo afora e, claro, no Brasil. Fica difícil, porém, enxergar no PT um possível herdeiro daquela tradição social-democrata. Tampouco que o país encontrará Lula depois de Lula. O futuro dirá se é acerto do olhar de cientista político ou gesto de um intelectual engajado.
[03/DEZ/2005]
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