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Trecho
“Nos tempos de oposicionista, Lula agia como se fora do PT não existisse salvação. Dividia o mundo entre companheiros e o resto. O partido tinha o monopólio da honradez, da decência, da ética, da solidariedade. Os outros não mereciam sequer um abraço. Eleito deputado federal, mal suportou um único mandato. Deixou a Câmara aliviado por afastar-se dos ‘300 picaretas’. Começou a mudar ao convencer-se de que só chegaria ao Planalto se celebrasse alianças com partidos que sempre menosprezara. No poder, contraiu a espécie de miopia cujos portadores não conseguem localizar fronteiras além das quais a falta de vergonha subjuga a ética e a auto-estima. Essa disfunção ajuda a entender as manifestações de afeto que contempla, desde a campanha vitoriosa de 2002, gente a quem Lula não estenderia a mão antes de sucumbir à prática política do vale-tudo. (...) No poder, descobriu que governaria com menos sobressaltos se topasse conviver com figuras sem acesso a lares respeitáveis. Parece ter gostado do jeitão da turma.“
[03/DEZ/2005]
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