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Crônica da crise
Livros analisam uma das mais intensas e extensas tormentas políticas do país
Rodrigo de Almeida
A esperança estilhaçada Augusto Nunes
Planeta, 128 páginas, R$ 24,90 Crise é notícia. Exceto, claro, os próprios alvos, jornalistas, analistas e aqueles que ajudam a informar e explicar escândalos beneficiam-se com o labirinto de dramas políticos e econômicos constituídos – dentro e fora do Brasil. Razão de mercado, mas também dever de ofício. Da pletora de lançamentos conduzidos pela missão de radiografar a crise do governo Lula, convém separar os caça-níqueis daqueles que de fato contam. A esperança estilhaçada, do jornalista Augusto Nunes, Lula depois de Lula, do cientista político Candido Mendes, e Memorial do escândalo, dos jornalistas Gerson Camarotti e Bernardo de la Peña, integram o último grupo. Todos, cada um a seu modo, oferecem um testemunho honesto do que tem sido a mais séria crise desde o impeachment de Fernando Collor. Tentam dar respostas a uma seqüência quase inverossímil de fatos que atormentaram o presidente, o PT, o Congresso e a população. Para Augusto Nunes, foi a primeira crise nascida e criada no seio do governo. Não houve, segundo ele, impressões digitais da oposição. Exagero? Para o colunista do Jornal do Brasil e do site NoMinimo, não. Experiente observador da política brasileira, testemunha nas redações durante mais de três décadas de tormentas, Nunes publica 43 artigos que chama de “crônica da esperança estilhaçada”. Seus leitores identificarão os textos escritos quase diariamente no jornal e no site. Mantém-se o virtuosismo do estilo, mas mudam as feições dos artigos – reescritos, ampliados, reorganizados ou concebidos para garantir ordem, sentido e qualidade ao livro. Está tudo lá: a ironia fina, os ataques sem medo aos comandantes do poder, o olhar preciso ao identificar as contradições dos políticos, o humor nas críticas e os detalhes nos perfis. A competência ao descrever os personagens que retrata, aliás, é o que de melhor A esperança estilhaçada tem a oferecer. E, neste longo 2005, sobraram nomes a perfilar: das obsessões do jornalista, como Lula e José Dirceu, a outros protagonistas da crise, como Roberto Jefferson, Luiz Gushiken, Antonio Palocci, Luiz Dulci, Duda Mendonça, Aldo Rebelo, Severino Cavalcanti. Nenhum deles garante um lugar edificante na escrita de Nunes. De Lula, ele escreve: “No poder, contraiu a espécie de miopia cujos portadores não conseguem localizar fronteiras além das quais a falta de vergonha subjuga a ética e a auto-estima.” Ou: “O presidente acha pouco transformar em aliado um antagonista histórico. Vai logo tratando o ex-adversário como se tivessem morado na mesma rua (...). Minutos mais tarde já o presenteia com a carteirinha de sócio do Clube dos Novos Eternos Amigos do Lula.” A Dirceu, dedique-se, por exemplo, o trecho: “‘Fui enganado por um homem dissimulado’, queixou-se Dirceu em abril de 2004, quando Waldomiro Diniz apareceu mal na fita. Em nove anos de convivência, alguma coisa Waldomiro aprendera.” Ou: “Os abalos decorrentes das pilantragens de Waldomiro teriam sido menos portentosos se Dirceu não sofresse de uma doença muito comum entre esquerdistas: quem passou a vida como estilingue dificilmente aceita a condição de vidraça. Seu negócio sempre fora atacar. Não aprendera a defender-se.” A qualidade também tem suas fissuras. Embora muitos sejam brilhantes, quando reunidos, os artigos revelam uma face às vezes cruel do jornalismo. Situados no confortável banco acusador, jornalistas costumamos avançar o sinal na emissão de julgamentos morais. Sobretudo em momentos agudos de crise. O dedo em riste sugere independência – característica, sublinhe-se, do autor, como na dura crítica ao Judiciário: “No decorrer da crise, o presidente do Supremo, Nelson Jobim, trataria de criar a Pastoral Parlamentar, concebida para socorrer deputados ou senadores em apuros. Jobim interromperia pessoalmente, com a concessão de uma liminar noturna, a marcha de petistas pecadores rumo ao cadafalso.” O mesmo dedo em riste, no entanto, pode escapar aos limites, enquadrando a agenda, estreitando possíveis debates, construindo certos lugares-comuns. O pecado é mais ou menos geral. (Não à toa, Balzac nos chamou de “espadachins da reputação alheia”.) Augusto Nunes escreve, com o olhar e o modo particulares, apoiado no que sugere o senso comum do seu vasto leitorado. Ao comentar a entrevista de Lula no programa Roda Viva, do qual participou, o jornalista conclui, por exemplo, que o presidente “ajudara a consolidar uma penosa sensação: o Brasil já não consegue acreditar num homem que conseguiu convencê-lo a perder o medo de ser feliz.” Se o coletivo é apropriado ou não, resta esperar – ainda que, como o próprio livro revela com clareza, esta é uma crise que desmontou o monopólio da honradez autoproclamado no passado pelos petistas. “Somados seis meses de estrondos quase diários”, escreve Nunes, “a grande crise de 2005 mudou o governo, os partidos, o Congresso (sobretudo a Câmara). Mudou (para pior) o comportamento do Poder Judiciário, mudou (para melhor) o jeito brasileiro de olhar a corrupção.” .
[03/DEZ/2005]
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