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A filosofia dramática
Livro explora Sartre como sujeito de si mesmo
Franklin Leopoldo e Silva*
Sartre: phylia e autobiografia
Deise Quintiliano DP & A/Faperj 184 páginas R$ 25 Sartre disse certa vez, numa entrevista, que a filosofia contemporânea é dramática, isto é, seu conteúdo metafísico já não se constitui de questões transcendentes e transcendentais, mas de tensões concretas da existência, manifestadas em condutas humanas, sobretudo no embate prático com a adversidade. O livro de Deise Quintiliano é fiel a essa concepção e a explora através de uma profunda compreensão do teor dialético das relações que se estabelecem entre o sujeito e si mesmo e entre o eu e o outro. Isso significa que não se deve procurar, na construção desses vínculos pelos quais cada um se constitui constituindo o outro, alguma síntese ou conciliação em que esse ''conflito das consciências'' pudesse ser superado ou incorporado numa totalidade superior em que se diluiria a tensão. A maior virtude do livro talvez esteja nessa compreensão de que a experiência da subjetividade e da intersubjetividade consiste nas aporias com que se defronta a liberdade. Essas dificuldades, que não são acidentais e sim constitutivas, devem ser remetidas ao fato de que as significações atribuídas a subjetividade e intersubjetividade, embora possam ser explicadas como realidades, só podem ser compreendidas enquanto ausências. Pois a subjetividade nada mais é do que o processo de se tornar sujeito, e a intersubjetividade, nesse sentido, só pode ser também o processo de constituição recíproca dos sujeitos no âmbito da existência. No limite, poderíamos falar de uma subjetividade (in)existente, porque inventada a cada momento pela liberdade que a constitui e a projeta. Ora, quando falamos em autobiografia, o maior obstáculo não reside na articulação dos fatos na vida de um sujeito, mas no estabelecimento de uma continuidade totalizante dessa história subjetiva, já que se trata justamente de relacionar a subjetividade (in)existente com a vida (auto)refletida. Assim na (auto)biografia - na grafia da palavra a autora deseja marcar a inevitável suspensão de uma problemática referência a si - já estaria presente o conflito intrínseco ao tipo de conhecimento que a tradição chama de ''consciência de si''. Note-se que a dificuldade não reside em que o sujeito pretenda objetivar-se a si mesmo - este seria o menor dos obstáculos - mas no caráter remoto da possibilidade de que cada um venha a coincidir com o seu próprio modo singular de se fazer sujeito. É notável a forma como a autora constrói a questão do seu livro através das simetrias e das diferenças que se podem encontrar no caráter conflituoso presente na subjetividade e na intersubjetividade. A alteridade em Sartre, como sabemos, é o meio litigioso em que os sujeitos se constituem mostrando-se ao olhar do outro. Como as relações humanas, fundamentalmente conflituosas, podem acontecer de modo a que se possa falar de algo como a amizade? Quando Sartre, dirigindo-se a Camus numa circunstância de rompimento, define a amizade que teria existido entre os dois como difícil, podemos dizer que na verdade se trata de toda e qualquer amizade; e que este caráter difícil não diz respeito a vicissitudes do relacionamento, mas ao próprio modo como se constrói e se mantém essa relação humana feita de laços nos quais têm de estar presente a separação, ou de vínculos que unem subjetividades pela distinção das singularidades. No aspecto da amizade também podemos notar a presença dessa categoria central do pensamento sartriano: a singularidade, que não é o isolamento de cada indivíduo na sua particularidade, mas sim o modo como cada um compartilha com os demais, a seu modo, a universalidade. As referências da autora a Hanna Arendt, a Derrida e a Blanchot nos ajudam a entender o que está no próprio cerne da noção de phylia: o entre, o espaço construtivo de uma relação fundada na distinção das liberdades. Nada mais de acordo com um pensamento no qual subjetividade e liberdade se identificam originariamente. Assim também se esclarece a diferença entre amizade e fraternidade, a indiferenciação ou a igualdade abstrata proveniente de uma identificação formal entre os seres humanos, princípio altissonante da modernidade que nunca orientou a efetividade da práxis. Ao elucidar as noções de (auto)biografia e phylia em Sartre, Quintliano abre a possibilidade original de compreensão das relações complexas entre subjetividade e alteridade, isto é, da condição humana.
*Franklin Leopoldo Silva é professor da Universidade de São Paulo (USP).
[01/OUT/2005]
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