''Alimento uma esperança desesperada''

Entrevista: Milton Hatoum

Paula Barcellos

[20/AGO/2005]

Se o livro tivesse sido escrito por encomenda, talvez não seria publicado num momento tão oportuno. Cinzas do Norte (Companhia das Letras, 312 páginas, R$ 39), terceiro romance de Milton Hatoum, é um retrato pessimista (ou realista, se comparado à crise política brasileira) de uma geração não apenas derrotada como desiludida. Trata-se da turma de 1968. Na época, de maneira geral, a juventude podia ser sintetizada em dois pólos: engajados e conformados. Representados na obra do manuara em Raimundo (Mundo) e Olavo (Lavo). Dois amigos, separados por crenças políticas e pela distância física (um teve como destino o exílio), mantém um diálogo, em pensamentos e lembranças, que, em retalhos, com a presença de três vozes narrativas, compõem o cenário político do fim dos anos 60. A utopia dos rebeldes fundem-se às belas paisagens amazonenses, com seus cheiros e cores, e a imagens metafóricas, sobretudo eufêmicas, da tortura. Tudo em um tom mais seco e menos descritivo do que em seus livros anteriores (Relato de um certo Oriente e Dois irmãos, que está sendo adaptado para o cinema).

A incerteza e a busca por alguma verdade norteiam as páginas do livro: cartas, sem remetente ou destinatário explícitos, revelam as elipses propositalmente pontuadas nos capítulos. Além de referências textuais a Machado de Assis, Hatoum seguiu também as estratégias literárias tão bem exploradas na obra desse clássico brasileiro: a partir da um núcleo familiar, de um microcosmo, consegue caracterizar a sociedade de uma década. Ao fim, sobram apenas memórias e cinzas. Uma narrativa bem amarrada que conflui para o trágico. Só se salva a literatura - ou ela mesma apresenta-se como único meio de salvação. Morando em São Paulo, dividindo seu tempo entre aulas na universidade, oficinas de texto e inspirações literárias, Hatoum, que quando jovem, ainda em Manaus, distribuía seus momentos entre a cantoria e a boêmia, revelou ainda, nesta entrevista, seus próximos projetos. Há um ano, começou a escrever uma novela para uma editora escocesa - um texto curto para uma coleção de mitos. O escritor almeja também reunir num livrinho vários contos e relatos publicados, além de alguns inéditos.

  • Você nasceu em Manaus e viajou pelo mundo – morou e estudou em Paris, passou pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos – e hoje mora em São Paulo. De que forma essa espécie de “exílio voluntário” interfere na sua obra? A experiência da escrita é muito diferente quando se está fora da sua terra natal ou de seu país?

    – Em dezembro de 1967 saí de Manaus, fiz um périplo por várias cidades e regressei ao Amazonas em 1984. Meu primeiro romance foi armado e esboçado na Europa. Grande parte do Dois irmãos foi escrita fora de Manaus: em São Paulo e na Califórnia. A distância ajuda a diluir a pressão da realidade. Falo da distância espacial e também temporal. Longe de Manaus escrevo com mais liberdade, e acabo inventando uma outra cidade. Além disso, posso falar sem constrangimento das pessoas que conheci e com as quais convivi, porque Manaus é ao mesmo tempo metrópole e província. O lado provinciano nos permite ver com nitidez a sociedade diferenciada, como se fossem personagens representando num palco gigantesco. Esse aspecto quase teatral é o que mais me interessa, porque você assiste de perto aos dramas humanos, e às vezes até faz parte deles. O mais conflituoso é o mais propício à ficção.

  • Acredita que hoje já consiga ter um olhar totalmente de fora sobre Manaus? Caso negativo, você almeja conseguir tal distanciamento?

    – Totalmente de fora, acho que não. O distanciamento estimula a imaginação, mas a proximidade é também necessária. Visito Manaus com freqüência... Sinto falta das pessoas, do sotaque, da vida portuária, dos colegas que trabalham no Mercado Adolpho Lisboa. Um deles é dono de um quiosque, um grande contador de histórias, morador do Morro da Catita, um bairro cuja história tentei reconstruir no Cinzas do Norte. Sinto falta também da culinária amazonense. Em Manaus, passo duas semanas comendo tambaqui, matrinxã, pescada amarela, pirarucu. No Rio é mais fácil encontrar essas iguarias do norte... Mais de cem mil amazonenses moram aí. Mundo [personagem do livro] é um dos muitos manauaras da minha geração que foi morar no Rio. Quando li um poema do Gullar (“Morrer no Rio”), encontrei o desfecho do romance. A parte final foi inspirada nesse belo poema.

  • Inicialmente, Cinzas do Norte se chamaria Vila Amazônia. A opção pela mudança do título foi sua? Por quê?

    – Foi uma mudança minha e dos meus editores. Não gostava muito do título, percebi que a Vila Amazônia era apenas um dos centros simbólicos do romance. O outro é a casa ilhada de Arana, um artista que não é de fato um artista, que se revela outro... O centro simbólico se encontra no Amazonas e também na perambulação de Mundo: a passagem pelo Rio, Berlim e Londres...

  • Seu livro sai num momento muito propício, quando o Brasil, em especial a política brasileira, vive um ápice cinzento no governo Lula. Para completar, um dos espaços temporais da obra é justamente a ditadura militar, da chamada geração 68, que os personagens Lavo e Mundo tão bem representam. No fim, tudo e todos terminam em cinzas. Seria o fim da esperança? Da morte das utopias?

    – Esse ápice cinzento do momento político e a desilusão narrada no romance foi uma coincidência infeliz... Eu mesmo fiquei surpreso e não posso dissimular o desencanto do presente com a desilusão do passado romanesco. Foi uma dessas coincidências involuntárias, em que realidade e ficção se confundem, se alternam e fazem parte do jogo do tempo histórico. No romance não há saída para nada, para ninguém... Quer dizer, a única saída é a a memória de uma grande amizade, reinventada pela escrita, pela literatura... O personagem Ranulfo (tio Ran) perde tudo, talvez pelo fato de não acreditar em nada, a não ser na paixão pela mulher. O narrador mantém um fio de esperança, e se torna um advogado de presidiários, num país em que o sistema jurídico é falho. Mas não quero aceitar o fim das utopias, e nem de longe penso em aderir ao conformismo e ao cinismo do nosso tempo. Prefiro dizer que alimento uma esperança desesperada.

  • E hoje, como você analisa a geração 68 do mundo real, aquela que teve o ex-chefe da Casa Civil, deputado José Dirceu, por exemplo, como um dos expoentes?

    – Muitos da geração 68 ingressaram no PT ou no PSDB, outros se acomodaram e abandonaram a política, os ideais, o bon combat sartreano. Penso que a maioria dessa geração está indignada. Ninguém sabe se o PT vai sobreviver. Talvez sobreviva, mas qual será seu rosto, sua essência? Não pertenço a essa geração. Em 68 eu era um moleque de 16 anos que estudava num colégio de aplicação da UnB. Em Manaus, levava uma vida dupla: era cantor, boêmio, farrista, e escrevia no Elemento 106, um jornaleco do grêmio estudantil do colégio Pedro II, que aparece no Cinzas do Norte. Em Brasília, participei do movimento estudantil mas nunca ingressei num partido nem em qualquer grupo de resistência à ditadura. Foi uma intuição, um estalo. Não gostava de obedecer às palavras de ordem, à hierarquia, e achava as reuniões uma tremenda chatice. Acho que um intelectual ou um escritor deve ser independente, manter-se fora do poder para criticá-lo. Por isso fiz questão de traduzir um livro de Edward Said: Representações do intelectual. Para Said, o intelectual, longe de ser um cínico ou um especialista, deve ser um crítico ao poder, ao preconceito, à miséria humana e à opressão.

  • A crise política serviu para elucidar ainda mais o quão cênica é a vida de uma maneira geral, especialmente a pública: os depoimentos nas CPIs e no Conselho de Ética são verdadeiros espetáculos. A realidade parece ter sido contaminada pela ficção, pela proliferação de atores políticos e sociais. A ficção, no entanto, em especial a prosa contemporânea brasileira, tem como uma de suas marcas a busca excessiva pela realidade. A sua literatura e a do Bernardo Carvalho, em estilos bem diferentes, conseguem, acredito, driblar esse impasse. Você concorda? Há limites entre real e ficcional?

    – Jorge Luis Borges dizia que a realidade é às vezes inverossímil. Bom, para ele, a realidade fazia mais sentido numa biblioteca ou nas páginas de um livro. Mas nenhum ficcionista escreve do nada. Nem Flaubert, que sonhava com isso, conseguiu... Acho que ninguém apaga o seu passado, que surge mesmo a contragosto, como uma aparição ou um susto. Num dos melhores contos de Borges – “O Sul” – há vários vestígios de sua vida. A realidade é apenas um ponto de partida. A literatura que pretende “ilustrar” ou reproduzir as nossas mazelas não vinga.

  • Na última edição da Flip, muito se discutiu acerca de uma literatura regionalista. Termo condenado, por sinal, pelos escritores presentes (João Filho, Ronaldo Correia de Brito e Antonio Carlos Viana). Como você também atua na academia, em universidades, ainda há uma tendência em usar a expressão literatura regionalista para caracterizar obras como as suas? Caso haja essa tendência, como ela se sustenta a partir do momento em que a literatura produzida é de alcance universal?

    – Não, acho que ninguém caracteriza minha obra como regionalista. Ao contrário, vários ensaios e inclusive teses acadêmicas tentam mostrar um alcance universal pelo viés da memória, da linguagem, do deslocamento dos narradores. Numa das primeiras resenhas sobre o Relato, Flora Sussekind já apontava essa direção contrária ao regionalismo. Outros críticos, como Luiz Costa Lima e Tânia Pellegrini, também falaram sobre essa questão. Não gosto de classificar nem de rotular a literatura. Classificar significa separar, confinar em etnias, sexo, etc. É uma obsessão que veio de fora, dos Estados Unidos. Não mordi essa isca.

  • Além de fazer referências textuais a Machado de Assis, em Cinzas do Norte, mais uma vez, a temática familiar, também muito presente em Machado, ressurge com bastante força. Seria um artifício quase imprescindível ao romance?

    – Os laços de família estão no centro do romance moderno e contemporâneo, na obra de Faulkner e de Raul Pompéia, de Balzac e de Philip Roth. Marcel Proust e Pedro Nava construíram grupos de personagens variados, excêntricos, onde não faltam conflitos familiares. E, claro, na obra de Machado de Assis, os triângulos amorosos, as alcoviteiras, os tios e primos, os diplomatas e médicos e advogados, toda essa família de amigos, parentes e agregados é importante. Há sempre um pesadelo ou uma fratura na vida familiar, e esse é um tema romanesco. Li Machado na minha juventude em Manaus, na velha coleção Clássicos Jackson, que guardo até hoje. Muito tempo depois percebi que ele falava da família para aludir a relações sociais, de classe, mas também à loucura e ao lado perverso, cruel e sombrio do ser humano, como ocorre no conto “A causa secreta”, que é um exercício sobre o sadismo. Fisguei algumas frases de um outro conto machadiano, que ironicamente se chama “O empréstimo”.

  • Acredita na existência de gêneros literários puros? Em que linguagens não se misturam? Se definiria, apenas, como um romancista?

    – Não, não acredito nisso, nem em qualquer tipo de pureza. Aliás, numa de suas cartas ao narrador, Mundo escreve: “Nada é puro, autêntico, original...”. Os gêneros literários, assim como as culturas, são formas híbridas, funcionam como vasos comunicantes, se deixam contaminar uns pelos outros. Sou apenas um escritor, autor de narrativas: romances, contos, oito ou dez poemas e vários ensaios. Por convenção, os três livros que publiquei podem ser chamados de romance. Não tenho nada contra o gênero, que já nasceu em crise, mas vai permanecer enquanto houver leitores.

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