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Independente mas sem amadorismo
Internet, pequenas editoras e gráficas ajudam os iniciantes a publicar o primeiro livro com qualidade
Vivian Rangel
Foi-se o tempo de levar originais mimeografados a dezenas de editoras ou vender fotocópias em mesas de bar. Com a popularização da internet, programas de edição e gráficas que imprimem livros com qualidade a preços acessíveis, os escritores iniciantes publicam as primeiras frases sem resquícios de amadorismo. A intenção pode ser mostrar o trabalho a amigos, montar um portfólio para impulsionar novas publicações ou até mesmo criar uma pequena editora e cuidar de todos os detalhes da confecção da obra. Saídos do ciberespaço, da favela ou da gráfica da esquina, Daniel Galera, Ferréz e Michel Melamed, entre outros, provam que é possível publicar livros e chegar até os leitores sem a chancela inicial de uma grande editora.
O rompimento com a lógica editoral tradicional não é novidade. Os poetas marginais da década de 70 enfrentaram a ditadura com fragmentos de textos e versos distribuídos em bares. Os livros artesanais e fanzines divulgam cultura alternativa há décadas. Caminhos percorridos no início da carreira por Ferréz, que começou espalhando poesias pela empresa que trabalhava até conseguir apoio para a primeira coletânea de versos. Foram meses carregando uma bolsa com exemplares vendidos em shows de rap, até receber a proposta de publicar Capão Pecado pela Labortexto. – Para escrever é preciso apenas caneta e papel. Publicar depende da conquista do público. Comecei no corpo a corpo, hoje acho que a Internet agilizou e profissionalizou esse trabalho – afirma Ferréz, que acaba de organizar a coletânea Literatura marginal (Agir). Produzir e divulgar na Rede pode ser laboratório e termômetro para as novas publicações independentes, que perdem o caráter caseiro e descartável das fotocópias grampeadas. Michel Melamed lançou Regurgitofagia no ano passado, quando atuava em um espetáculo homônimo no qual levava choques de acordo com as reações da platéia. Durante a temporada da peça convocou designers amigos para fazer a identidade visual e produziu a primeira edição do livro em uma gráfica. Começou vendendo no teatro e distribuindo nas livrarias perto de sua casa até receber uma proposta da editora Objetiva que relançou a obra. – O fato de você não ter a chancela de uma grande editora não significa que seu trabalho seja artesanal. Depois que escrevi o livro, o próximo passo era publicar, a obra precisa sair do plano metafísico e chegar ao real. E há maneiras de fazer isso, que não são simples nem complexas. São possíveis – acredita. A empreitada bem-sucedida de Melamed motiva escritores como o professor Hélio Dias Ferreira. Há 20 anos ele planeja lançar um guia de história da arte para iniciantes e enviou o projeto a diversas editoras sem sucesso. Recentemente partiu para a publicação independente no Armazém Digital e materializou Uma história da arte ao alcance de todos . – Os autores pagam a tiragem inicial e podem optar por divulgar o livro na página do Armazém, com lucro de 30% – explica o professor da Uni-Rio que contabiliza público garantidos entre seus alunos. Com poucas pretensões, a designer Julia Bessler, de 21 anos, resolveu desengavetar a produção de cinco anos de poemas. Em poucos meses, fez toda a concepção de Poeira e outras acumulações – da capa às ilustrações. Com custo inicial de R$ 25 por cada exemplar de até 100 páginas, ela tem direito até mesmo a noite de autógrafos. – Fiz uma edição inicial de 50 exemplares para o lançamento. Se a demanda for maior, o Armazém imprime a folha de rosto para autografar e entregar o exemplar na casa do leitor. Na negociação ainda dá para conseguir desconto em exemplares para enviar a imprensa – ensina. A Fábrica de livros do Senai é outra alternativa para quem quer desde a impressão até a criação do conceito visual do livro. Imprimir um volume de até 100 páginas, com opção de capas padronizadas, caso o autor não tenha uma própria, sai por cerca de R$ 8. – Fornecemos todos os serviços feitos por uma grande editora por um preço baixo, impressão, diagramação e inclusive distribuição do livro – detalha o analista de marketing do Senai Artes Gráficas, Marco Antonio Ramos. As editoras pequenas costumam atender a nichos específicos e receber com mais cuidado os autores iniciantes. Como a Senac Rio, que atende àqueles que têm obras de referência em moda, tevês ou saúde, entre outros. O livro tem que pertencer a alguma área de referência do Senac e, a princípio, a editora não trabalha com ficção. Mas o lançamento de Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, de Moacyr Luz, previsto para outubro, prova que a seleção não é tão restrita e serve de estímulo para o envio de originais.
[06/AGO/2005]
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