Reinvenções da América

Thomas Pynchon une ciência, ficção e história para traçar um criativo perfil da sociedade americana do século 18

Mauricio Salles Vasconcelos*

[28/AGO/2004]

Mason & Dixon
Thomas Pynchon
Tradução de Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras
842 páginas
R$ 73,50

As ficções de Thomas Pynchon, desde a consagração obtida pelo autor com o lançamento de O arco-íris da gravidade (1973), vêm constituindo uma espécie de mapa das possibilidades da escrita narrativa nas últimas décadas do século 20, assim como um espaço aberto para experimentações teóricas por parte dos críticos mais diferentes. Argutos desconstrucionistas como os australianos Alec McHoul e David Wills, estudiosos da semiotecnologia como Friedrich Kittler, assim como pesquisadores interessados nas relações entre arte e ciência, caso de N. Katherine Hayles, concentraram-se no universo do escritor americano, nele sondando a emergência de formulações de linguagem capazes de abranger um arco de relações impensadas com a história, a cosmologia e o ambiente tecnocientífico do presente.

Em torno de O arco-íris da gravidade, muito foi escrito acerca do caráter desbravador do romance, em sua apropriação do teatro-de-operações movido pela Segunda Guerra Mundial, tomando como base um momento histórico-cultural sobre o qual o livro não somente especula. Cria outras divisas entre ficção e sistemas de informação, entre escrita e máquina de guerra. E, de fato, a terceira narrativa longa publicada por Pynchon se tornou uma referência central não apenas no âmbito da literatura contemporânea, mas um marco da cultura pós-moderna, exatamente por centrar-se no campo de forças da história recente (considerando-se a década de 70, época de sua publicação), de modo a multiplicar os raios de visão e leitura conhecidos sobre o século das grandes guerras, para usar a expressão de Hobsbawm, marcado, a um só tempo, pelo desastre e pela crença progressiva no novo. Em O arco-íris da gravidade, o tempo histórico revisitado amplifica o poder de conhecimento e imaginação sobre um panorama de discursos, técnicas e linguagens que atravessa os leitores em sua experiência presente, como que anunciando uma era crítica, ultramediatizada, contudo plural, no modo de escrever/ler e, também, de durar (de saber a respeito do tempo) sob a indeterminação, sob a fratura dos sistemas totalizadores, constituídos.

Depois do lançamento de Vineland (1990), romance sobre a cena contracultural dos anos 60, surpreende que Pynchon retorne à escrita de ficção, desobedecendo a uma possível cronologia histórica traçada por seus últimos livros, já que, em Mason & Dixon (1997), seu empreendimento genealógico recua até o século 18. Essa é, no entanto, apenas uma das várias paradoxias construídas entre narrativa e história pelo escritor.

O interesse em recriar as existências reais dos cientistas ingleses Thomas Mason e Jeremiah Dixon, um astrônomo e um agrimensor, empregados da Academia Real de Ciência, atende a um propósito misto de especulação e invenção. Mais do que ficcionalizar personagens da História ou de dispor da História como ficção - através da vertente oferecida pela metaficção historiográfica, concebida por Linda Hutcheon, já aclimatada ao mainstream mercadológico-acadêmico -, o longo livro de Pynchon se aventura a atualizar as noções de ciência, ficção e mesmo de história, sem perder o fio e o ''pique'' de uma deliberada fantasia.

Entre a agrimensura e a astronomia, como que relendo, de um modo nada evidente, o Kafka de O castelo, assim como as epopéias cut-ups, de William S. Burroughs (autor/experimentador de escritas configuradas em redes informacionais, essencial no itinerário de Pynchon como escritor), Mason & Dixon trafega por um espaço múltiplo, nocional, cruzado por linhas fabulativas surgidas do contato e do confronto extremos entre a observação da Mecânica Celeste e a medição da terra (do território hoje conhecido como Estados Unidos da América, cuja divisa Norte-Sul foi traçada pelos dois cientistas). O intuito de Pynchon não é o de realizar simplesmente uma topografia dos discursos e dos modelos históricos de humanidade despontados na emergência liberal-burguesa da América do Norte, uma vez que deixa irresolvidos, por uma sucessão de chistes e cenas desenhadas pelo grafismo e pela velocidade dos comics (um traço notável desde V), os elos entre ciência e poder, entre cosmos e território. Como se a incursão do romance mais recente de Pynchon pelo passado tornasse ainda mais relativizada a idéia de história e se movesse por uma infinidade de linhas espácio-temporais, à medida que cartografa (ao modo dos agrimensores-cientistas M & D) a extensão/expansão de planos de conhecimento e criação, mais próximos de um evento/advento do que de uma reconstituição documental homogênea, unificadora. Tudo no compasso, no passo claudicante dos protagonistas, uma dupla clássica, um duplo de todas as figuras e linguagens do romance, na vertente de Bouvard et Pécuchet, de Flaubert, mas também naquela dos pares, em não-companhia, próprios de Beckett.

Integrantes de um universo em fissão, em disjunção, Mason e Dixon soam como peças fundamentais (não totalizantes) da genealogia de uma nova cultura - perguntando-se, de novo, à maneira de Blanchot, para onde vai a literatura? Ou a literatura como atividade vital de uma cultura cartográfica, como a de agora, situada já na problemática de uma outra, diferente época (e, novamente, envolvida com a questão, indagação da história, sob um crivo genealógico). Literatura altamente consciente da diversidade de linguagens e territórios possíveis a um gênero conhecido ainda como romance, algo que sinaliza hoje como o ato livre criativo, mas também especulativo, de uma cultura planetária (tal como concebem Kostas Axelos e Gilles Deleuze).

É o que se lê, com sabor de descoberta por tudo que se conjuga e se revela, sob a assinatura, nada secreta, do inacessível, insondável escritor Thomas Pynchon. Mais uma vez, o poeta Paulo Henriques Britto traduz uma narrativa do autor com felicidade e prazer de criar, mantendo-se à altura, na nervura do dinamismo conceitual, de tudo o que se inaugura sob a senha/legenda Mason & Dixon.

*Autor de STEREO e RIMBAUD DA AMÉRICA E OUTRAS ILUMINAÇÕES

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