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''Nossos jornalistas comem nas mãos da Casa Branca''
Gay Talese acusa a imprensa americana de ser subserviente e acrítica
Paula Barcellos
[24/ABR/2004]
Por incrível que pareça, o homem que, no final da década de 50, ao lado de Tom Wolfe e Norman Mailer, revolucionou o jornalismo, hoje, em pleno século 21, é totalmente avesso a inovações. Ao menos, as tecnológicas. O americano Gay Talese, 71 anos, um dos nomes mais representativos do new journalism, ignora a internet e não se corresponde por e-mail. A tecnologia mais moderna que usa - e só em raras exceções - é o fax. E foi por intermédio dele que Talese concedeu esta entrevista ao JB.
O jornalismo em si - e não poderia ser diferente - pautou a conversa. Mas Talese não se limitou a falar das transformações do new journalism, classificação que, por sinal, rejeita. Pelo contrário: fez uma dura análise da atual complacência da imprensa americana com o governo George Bush.
- Os jornalistas nunca enxergam com realidade os problemas da administração Bush, tampouco questionam severamente. Se o fizessem, algumas verdades sobre a conduta moral de Bush, Rumsfeld e todos esses generais do Pentágono viriam à tona - dispara.
Em Fama e anonimato (Companhia das Letras, 504 páginas, R$ 52), uma reedição, revista e ampliada, da famosa coleção de reportagens Aos olhos da multidão, de 1973, Talese incluiu dois textos inéditos, mas não abandonou a divisão temática que fez tanto sucesso há mais de 30 anos. Num curioso retrato de Nova York, personagens anônimos e famosos se esbarram neste livro, em que Talese transforma banalidades em reportagens que fizeram história. Numa delas, ele parte de bizarras estatísticas - 150 mil pessoas andam diariamente por Nova York com olhos de vidro ou 25 gatos vivem 22 metros abaixo do Grand Central Terminal - para fazer uma análise antropológica da cidade. Também pela Companhia das Letras, Talese já publicou no Brasil A mulher do próximo e O reino e o poder.
- Em ''A festa acabou'', um dos artigos de Fama e anonimato, o senhor escreveu que as notícias são encenadas para as câmeras e os críticos dançam de olhos fechados. Como fica uma imprensa sem notícia do que, de fato, acontece e acrítica?
- Reitero aqui a minha observação. Vejamos os jornalistas que são pagos para cobrir o governo americano em Washington: os olhos de todos eles parecem fechados para o que está acontecendo. Eles nunca enxergam os reais problemas da administração Bush, tampouco a questionam severamente. Se o fizessem, algumas verdades sobre a conduta moral de Bush, Donald Rumsfeld (secretário de Defesa) e todos esses generais do Pentágono viriam à tona. Assim, emissoras como a CNN e a Fox, por exemplo, não estariam nos dizendo que a invasão do Iraque foi saudada com flores pelo adorável povo. A imprensa virou uma espécie de mascote dos militares. Quando um repórter é protegido por um comandante de tanque ou por um fuzileiro, ele se torna um companheiro dos militares, de maneira que - e isso quero enfatizar - sua imparcialidade é afetada.
- Qual a influência da cobertura jornalística na opinião pública americana?
- Nós, americanos, somos um público desinformado há muitos meses, acalmado por nossa frouxa imprensa de Washington e por nossos repórteres embutidos no front, que acreditam que Bush, Condoleezza Rice (assessora de Segurança Nacional) e Rumsfeld estão libertando o mundo e nos defendendo de novos ataques terroristas. É fato que está havendo mais destruição lá (no Iraque) nos últimos meses do que em qualquer momento desde o início da guerra, há um ano. Nos anos 60, os Estados Unidos tinham uma imprensa boa e, sobretudo, muito crítica. Harrison Salisbury, do The New York Times, foi a Hanói em 1966 e descobriu que bombardeios americanos estavam destruindo casas de civis e hospitais (o contrário do que a assessoria da Casa Branca dizia). Salisbury foi condenado pela Casa Branca como um jornalista simpático aos inimigos, um apologista dos vietnamitas. David Halberstam, também no Vietnam, foi um dos jovens jornalistas que contaram a verdade, e foi criticado pelo presidente John F. Kennedy. Mas, e daí? Halberstam e outros corajosos jornalistas conseguiram colocar a opinião pública contra a guerra. Quem, entre os jornalistas de 2004, são os novos Halberstams ou Salisbury? Ninguém que eu saiba. Tem Seymour Hersh, que escreve boas matérias de investigação para a revista The New Yorker, e alguns outros. Mas nosso jornalismo parece ser formado por pessoas cegas.
- Qual é o problema dos repórteres hoje?
- Nossos repórteres não estão nas ruas com as pessoas, nossos jornalistas políticos andam em rebanhos como um grupo de comadres na capital do país: falando um do outro, comendo nas mãos da Casa Branca e se preocupando com a possibilidade de serem atacados pelas Forças Armadas se forem muito críticos no que escrevem. Suas visões estão embaçadas pela tela do computador. Eles não são inovadores e investigadores como os jornalistas da época da Guerra do Vietnam.
- Quais seriam os reflexos de uma imprensa conduzida por ''homens de olhos fechados''?
- Críticos de olhos fechados nós estamos cansados de ver na televisão, principalmente quando falam das audiências de Washington e nos alertam, como porta-vozes do governo, da CIA e do FBI, para a possibilidade de ataques terroristas. Acredito que a falha na estratégia do FBI e da CIA também é reflexo da falha da cobertura jornalística. Nós não estamos lá fora, nas ruas, como deveríamos. Não estamos nos misturando com as massas. Estamos trancados entre quatro paredes, assistindo a tudo pela tela do computador. Não enxergamos mais a realidade, porque as telas nos cegam. Não estamos ligando os pontos, como se diz, e eu pergunto o motivo. Respondo: porque estamos voltados para dentro, em vez de estarmos apurando a realidade com nossos melhores instintos e energias.
- Embora seja sempre citado como um dos fundadores do novo jornalismo, o senhor sempre renegou o título. Então, como define sua participação na imprensa?
- Como você mesma disse, sempre tentei fugir de rótulos. Até hoje, não sei o que há de novo no novo jornalismo. Tom Wolfe estava tentando me honrar quando se referiu a mim como um dos pais do new journalism. Mas é uma paternidade que não posso reconhecer. Temo que o novo jornalismo tenha se transformado numa matéria elegante para se estudar nas universidades dos anos 70 e 80. Sou um devoto do velho jornalismo: apurar os fatos corretamente, escrever com clareza, de maneira interessante e sem a mínima tolerância para com falsificações ou exageros. Uma das maiores satisfações e recompensas que tive ao escrever por tantos anos foi a credibilidade que conquistei e o fato de nunca ter sido acusado de inventar histórias ou de optar pelo caminho mais fácil e nem sempre correto.
- Como o senhor analisa os escândalos na imprensa americana, como o recente caso de Jayson Blair, que admitiu ter inventado informações e personagens em reportagens do jornal The New York Times?
- Embora admire muito Tom Wolfe, eu acredito que muitos jovens ''novos jornalistas'' estão mais interessados em dar o furo, escrever rápido, do que apurar os fatos corretamente. Wolfe é um grande pesquisador, assim como um escritor muito original. Mas muitos dos seus novos admiradores priorizam o estilo ao conteúdo e acabam se perdendo nos fatos. Não estou falando do exemplo mais escandaloso, como o caso de Jayson Blair. Ele nunca foi um bom escritor e nunca tentou sê-lo. Blair foi apenas um repórter mentiroso. Era muito bom em mentir, e só isso.
-Qual a relação entre jornalismo e literatura, não-ficção e ficção?
- Como faço tanto literatura quanto jornalismo, vejo uma relação fortíssima entre os dois. No entanto, devo ressaltar que não seria completamente adequado dizer que faço jornalismo, quando não sou mais um repórter diário. Sou, na verdade, um escritor de não-ficção. Minha não-ficção é baseada em minhas pesquisas de campo, no meu contato com as pessoas e em minhas observações. E isso é seguido por um organizado e particular programa de ação, que reflete a minha noção de qual seria a melhor maneira de contar a história. E, finalmente, depois de ter o material organizado, começo a escrever e reescrever até eu finalmente achar que não possa fazer melhor em cada parágrafo e em cada página escrita.
- Mas o senhor não tinha problemas por descumprir prazos, ultrapassando o famoso deadline, no jargão jornalístico?
- Obviamente, tenho meu tempo e não ligo para deadlines ou, ao menos, não me importo muito. Há 40 anos, quando era repórter diário de The New York Times, eu era obrigado a fazer uma matéria por dia. Confesso nunca ter sido muito bom nisso. E, na verdade, estava sempre infeliz. Eu raramente pensava que havia feito um bom trabalho, com propriedade. Queria e precisava de mais tempo. Finalmente, quando estava com 32 anos, em 1965, pedi demissão. A pressão do deadline diário estava devorando meu espírito. Foi aí que fui tentar escrever para revistas (para a Esquire com um contrato de um ano - 1965/66). Desde então, comecei a escrever livros que me tomam cada vez mais tempo. Eu apenas espero viver o bastante até este verão (inverno no Brasil) para poder terminar o livro que estou escrevendo desde 1993. Mas nem me pergunte sobre o que é. Só sei que gostei do que escrevi até agora. Tenho 500 páginas empilhadas na minha mesa. Demorei nove anos para concluir Unto the sons e mais nove escrevendo A mulher do próximo. Honor thy father e O reino e o poder levaram seis e cinco anos, respectivamente. Quando eu escrevia para revistas, nos anos 60, levava meses para fazer um único artigo. Demorei mais de três meses para escrever ''Frank Sinatra teve um resfriado''.
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