Personagens mutantes no submundo de Copacabana

Livro de estréia de João Paulo Cuenca mostra a qualidade da literatura de uma nova geração que se projetou a partir dos blogs

Flávio Carneiro

[13/DEZ/2003]

A melhor leitura que se pode fazer do primeiro romance de João Paulo Cuenca vem já de bandeja na orelha do livro: ''Tal como os números primos que encimam os fragmentos do texto, os personagens de Corpo presente são divisíveis por eles mesmos e por um.''

De fato, chama a atenção nas primeiras páginas de Corpo presente a numeração dos ''capítulos'', que apresentam enigmáticas lacunas (do 7 pula-se para o 11, por exemplo). A princípio, o recurso pode parecer apenas uma dessas experimentações vazias, cacoetes de vanguardas tardias, que assolam parte da ficção brasileira produzida hoje.

Mas a numeração espelha um outro estranhamento, o de personagens que se estilhaçam, fragmentando-se em cacos de onde nascem novos personagens, num movimento que nasce e termina sempre no mesmo número um: o narrador.

Não há propriamente uma história, mas um fino fio condutor: um homem apaixonado por uma mulher, Carmen. Quem narra é um jovem morador de um pardieiro em Copacabana que troca a noite pelo dia e está escrevendo um livro sobre essa mulher. Há também um terceiro personagem, Alberto. A partir desse esboço de enredo, o narrador vai nos mostrando por dentro suas andanças pelo submundo carioca, pela memória e pela imaginação.

Carmen é ruiva, loira, negra. É cachorra no baile funk, esposa dedicada, apreciadora de artes plásticas, garota de programa, bancária, travesti. Talvez seja uma mulher a partir da qual o narrador constrói outras mulheres, inclusive a própria mãe, ou quem sabe não exista, de corpo presente, e seja apenas o resultado das representações femininas fabricadas por um olhar masculino nada ortodoxo. Alberto também é um conjunto de cacos: amigo, cliente, marido de Carmen, jovem, velho, tarado, homossexual. E não é improvável que seja ele o narrador de toda essa história.

Com essas e outras ambigüidades vai se construindo o romance, que, no seu início, lembra um pouco mais do que devia a obra de João Gilberto Noll. O sujeito errante, vagando sem sentido pela metrópole, o gosto pelo escatológico e pelo obsceno, a forma de contar a partir de fragmentos e, ainda, certo lirismo que brota da podridão, tudo isso remete de imediato à obra de Noll. Sua presença, no entanto, vai se diluindo aos poucos, virando sombra, sobretudo a partir do momento em que se percebe que o narrador, ao contrário dos personagens de Noll, tenta se livrar da situação caótica em que vive.

E não é só dessa matriz que Cuenca se distancia e, ao mesmo tempo, dialoga. Também em relação a outros escritores de sua ''geração'' (seja lá o que isso signifique), o autor marca sua diferença, impondo ao texto uma personalidade impressionante para um romance de estréia. Nesse sentido, Corpo presente é um duplo retrato de certa ficção produzida hoje por jovens autores, entre os 20 e 30 anos, e marcada pela experiência de escrever intimidades em escala planetária, em blogs espalhados pela internet.

E duplo retrato porque traz as marcas dessa escrita - velocidade, sexo, drogas, perversões, escatologia, assumido despojamento (como se fosse um diário íntimo), esboço de enredo, egotrips diversas -, e, simultaneamente, faz uma apresentação (auto)crítica dos conflitos vividos pelos jovens autores dessa mesma escrita.

Que o leitor, portanto, não se iluda: Corpo presente é um romance ambíguo. Traz um pé no presente, como sugere o título, e outro em nosso passado recente - por exemplo, quando reencena o diálogo entre ficção e ensaio, surgido, ou intensificado, na prosa brasileira pós-ditadura militar. Daí a recorrência a temas como originalidade, tradição, ruptura, que vão ajudando a compor a história e são trabalhados pelo autor de forma sutil, sem cair em estereótipos, deixando fluir livremente a narrativa.

Além desses, outro tema, fundamental para a discussão sobre literatura e cultura num tempo marcado pela super exposição (de produtos, de idéias, de pessoas), é trazido ao palco do romance: o do anonimato. É sobretudo de anonimatos que trata Corpo presente.

O narrador é um anônimo, quem sabe apenas mais uma imagem (falsa?) no caleidoscópio humano de Copacabana. Os outros escritores a quem se refere - ''as grandes cabeças da minha geração'' - não são nomeados, o que faz deles uma massa de anônimos reunidos por afinidades de pouca importância, no final das contas.

E não falta ironia nessa abordagem, principalmente na figura do artista plástico famoso que se identifica apenas por um símbolo, escondendo sua identidade real e representando, assim, um falso anonimato que acaba funcionando como forma de sedução. Isso sem falar no aviso pregado na parede da portaria do prédio em que mora o narrador, aviso gerador de múltiplas leituras, se tomado na arquitetura final do romance: ''IDENTIFICAR-SE É UM ATO DIGNO''.

Apenas em um momento João Paulo Cuenca parece derrapar na própria inexperiência. A certa altura, o narrador diz, a respeito do texto que está escrevendo: ''quando passa da página 124, o trabalho começa a ficar extenuante.'' De propósito ou não, a partir justamente da página 124 a leitura de Corpo presente também começa a ficar extenuante.

A errância do narrador, seus delírios e mesmo o jogo de criar ambigüidades, que até então vinha sendo conduzido de forma precisa, começam a pesar um pouco demais. Ficam sobrando, na economia tão enxuta do livro. Se foi intencional, não deu certo. Se não foi, é bom o autor ficar atento em seus projetos futuros, evitando cair na verborragia que condena.

O último capítulo, no entanto, redime qualquer deslize anterior, encerrando muito bem a história e remetendo o leitor ao moto-contínuo que move um mundo onde tudo parece ser o que não é. Mundo no qual o narrador não apenas se meteu mas que ele mesmo criou, e que nos envolve também, a nós leitores, por artes de seu criador.

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