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O modernismo platônico de Emílio Moura
Antologia recupera obra do autor que, longe da ribalta, dedicou sua vida à poesia
Paulo Amador
[26/JUL/2003]
Itinerário poético: poemas reunidos
Tão discreto quanto foi em vida, Emílio Moura (1902-1971) teve o centenário de nascimento comemorado em surdina quase religiosa, mas pelo menos com uma iniciativa que faz inteira justiça a sua memória: a Universidade Federal de Minas Gerais publicou, em segunda edição, seu Itinerário poético. Para quem gosta de boa literatura não podia haver notícia melhor. Com Abgar Renault e os dois Murilos - Araújo e Mendes -, Emílio integrava o naipe de ouros da poesia mineira surgida sob o signo da revolução modernista de 22, num baralho em que Drummond jogava como curinga.
Quadra luminosa aquela, quando a jovem capital de Minas reunia, em torno de seus bares e nos alpendres das casas do bairro de Funcionários (públicos), a fina flor de uma literatura excepcionalmente boa. O escândalo que promoviam na arte era mais discreto e muito menos barulhento que o das gerações contemporâneas que agitavam São Paulo e o Rio. Em Belo Horizonte, o modernismo era atrevido na poesia que ensaiava a desconstrução da linguagem travada do verso rimado e metrificado, mas apegadamente conservador na prosa ainda machadiana de Cyro dos Anjos e no alencarismo romântico de Abílio Barreto.
Nesse contexto feito de contrários, Emílio Moura teve biografia pouco ousada. Alto, imponentemente minguado de carnes e rico de perplexidades, procurava disfarçar o tamanho de seu talento em timidez bem-educada e silenciosa. E foi assim que conseguiu preservar, em meio à confusão de vozes experimentalistas de sua geração, a singularidade de uma dicção límpida, que já sussurrava pelas páginas de A Revista - onde foi redator entre 1925 e 1926 - poemas de alta investigação ontológica.
Emílio Moura não se contentava com menos. Sabia da solene gravidade das palavras-cofres em que é trancado o mistério da condição do homem sobre a terra. Decifrá-lo foi o desafio em que investiu uma vida inteira de indagações, em trabalho meticuloso e disciplinado que resultou nos 10 livros que abrangem a criação de 1927 a 1969, e se constituem em sua obra inteira. São os livros que o próprio poeta, desprezando várias produções, recomendava e quis considerar como definitivos. Exatamente os livros que integram a edição do Itinerário poético lançado pela UFMG, com prefácio de Drummond e uma orelha da professora Letícia Malard, especialista no conhecimento das letras mineiras.
É obra essencial, pela situação histórica do autor na produção modernista de Minas, e por sua própria definição intrínseca. Há na coleção uma predominância de poemas curtos, de baixa opacidade, centrados em torno dos eixos temáticos do amor, da solidão e da renúncia, em tom de voz de desencanto. Por tudo isso Emílio Moura foi chamado de poeta do não.
Pode ser. E pode não ser. Na soma da qualidade dos signos que utiliza e mais a capacidade de evocar platonicamente a essencialidade das coisas tais como figuradas idealmente no espírito, merecia mais ser chamado de poeta do sim. Raras vezes na literatura brasileira alguém chegou tão perto do coração indevassado da realidade. A intuição de Emílio Moura era agudíssima quando desafiada a encontrar expressão verbal para sensações inteiramente vazias de aparência e figuração. Este é o melhor segredo de sua arte: a capacidade de exprimir o que humanamente é quase inexprimível, ''extraindo-se dos motivos aquilo que eles têm de essência e de vida'' - de acordo com suas próprias palavras.
Essa cartilha exigente só podia ter sido realizada a troco de muita disciplina e trabalho silencioso. Por isso Emílio Moura, mesmo tendo sido o imenso poeta que foi, jamais ultrapassou a soleira da porta da notoriedade escandalosa por onde tantos de seus contemporâneos procuraram entrar na casa da fama. Preferiu manter com a poesia uma discreta relação platônica de indagação de essências que nada tem a ver com o palanque da impaciência juvenil de outros modernistas, desejosos de desmantelar o edifício da retórica finissecular - que se mantinha naquelas primeiras décadas de século 20. Assim fez, e pagou caro por evitar a ribalta.
O último preço foi o silêncio em torno de seu centenário, que era tão importante para a literatura brasileira como o foi para Dores do Indaiá, onde o poeta nasceu. Quase não se falou em Emílio Moura no ano em que o Brasil inteiro comemorou - com justiça - o centenário de Drummond. O século foi pequeno demais para os dois grandes mineiros.
Quanto ao Itinerário poético, a edição da UFMG deve proporcionar ao leitor de poesia de hoje um encontro que a máquina da reprodução industrial não soube patrocinar. As edições de qualquer dos livros de Emílio Moura geralmente são acontecimento regional. Mereciam público maior. Que o dissesse Drummond, que marcou a distância que separa a produção de outros poetas, que ''se condenam à claridade solar'' e propõem uma explicação que não vai além da ''película visível de um mundo com suas convenções universalmente estabelecidas, sua flora e sua fauna escrituradas'', e a poesia de Emílio Moura. Neste, via muito mais. Via o artista que ''abriu mão de tudo que era experiência atávica e informação facilmente adquirível, para recriar o mundo à força de perscrutá-lo''. E não é exatamente esse o verdadeiro objeto da poesia?
É o que diz a estética literária (recriação mimética da realidade pelos filtros da intuição e da singularidade do artista) e o que fez Emílio Moura em cada um de seus poemas. Ele ''não nos deu a exegese do mundo, mas a criação de um ser ideal dentro do mundo imperfeito, obscuro e hostil, logo transfigurado por essa criação''. Quem afirma é novamente Drummond, no prefácio à primeira edição do Itinerário poético. E a prova está lá, em poemas como ''Libertação'', em que recomenda que não se deve ''vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade, mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos''. Ao leitor, cabe conferir.
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