Sábado, 1 de Setembro de 2001
De volta ao pó

Em dois ensaios comoventes, escritos aos 85 anos, o sociólogo Norbert Elias refletiu sobre a solidão da morte e o sentido da vida

MOACYR SCLIAR

A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS

Norbert Elias

Tradução de Plínio Dentzien

Jorge Zahar Editor, 107 páginas

R$ 15

Na última cena de Thelma e Louise, as duas protagonistas, que acabaram de encerrar, com um pacto de morte, uma tresloucada mas exuberante trajetória, precipitam-se no Grand Canyon em um automóvel. Em se tratando de filme americano, seria de esperar que o carro se despedaçasse nas rochas, explodindo espetacularmente. Mas não é o que acontece. A cena fica congelada, o automóvel no ar. Logo depois vemos Geena Davis e Susan Sarandon, sorridentes, como estiveram em muitos momentos da película. Ou seja: elas não morreram. O diretor opta por esta solução por razões óbvias: a maioria dos espectadores não suporta a morte de heróis ou heroínas. Só os bandidos podem morrer.

Lidar com a idéia da morte é uma coisa difícil. Estudante de medicina vi, pela primeira vez em minha vida, pessoas morrendo. Presenciei, várias vezes, aquele instante que denominamos, eufemisticamente, de último suspiro. A minha reação era dupla: de horror e de perplexidade. Em um momento o paciente, às vezes jovem, estava diante de nós, falando, gemendo, gritando - vivo; no instante seguinte o que tínhamos no leito era um corpo imóvel, o cadáver. E a vida? Para onde fora a vida?

Há duas respostas possíveis a esta pergunta. Para muitas pessoas, a morte é apenas o começo da eternidade, e o que vai acontecer na eternidade é algo de que só a religião pode se ocupar. De qualquer modo, é uma idéia consoladora; a existência prolonga-se, sim, para sempre e, dependendo da conduta terrena da pessoa, de forma gratificante. Para outros, a morte é mesmo o fim. Do ponto de vista científico, racional, esta é a evidência mais concreta - e mais perturbadora. Um dos resultados disso é aquilo que dá título à obra de Norbert Elias, A solidão dos moribundos.

Norbert Elias (1897-1990) é uma das figuras lendárias da intelectualidade do século vinte. Homem de cultura enciclopédica - estudou medicina, filosofia e psicologia na Alemanha - Elias tornou-se professor de sociologia em Leicester e em outras universidades. Mas não pode ser definido apenas como um sociólogo. Sua obra mais conhecida, O processo civilizador (também publicada por Jorge Zahar) combina de maneira notável a história, a psicologia e a antropologia para explicar, por exemplo, como surgiram as maneiras de se comportar à mesa. De Elias podia-se, portanto, esperar um grande estudo sobre o tema, tanto mais que, quando foi escrito, o autor tinha mais de 80 anos. E é, sim, um grande estudo.

A morte e o morrer têm sido objeto de numerosos trabalhos, tanto históricos (Philippe Ariès) como filosóficos (Ernest Becker) e psicológicos (Elizabeth Kübler-Ross, que descreveu as cinco fases pelas quais passa a pessoa diante da morte iminente, e que depois enveredou por um caminho místico). Alguns destes são obras de envergadura, calcados em numerosos dados, estatísticos, inclusive. Mas Elias optou por um ensaio, à maneira de Montaigne; um trabalho erudito, ao qual não falta, contudo a emoção, e que se completa, no mesmo volume, com a conferência ''Envelhecer e morrer''.

A morte, diz Elias, é um problema dos vivos; os mortos já não têm mais problemas. Para este problema ele não tem a resposta, aquela que teria para nós o significado de uma revelação, mesmo porque ele não acredita em revelações. Acredita em entender. E, em matéria de entendimento, esta é uma obra brilhante, inclusive pela magnífica síntese que representa.

A visão que temos da morte depende do momento histórico e do contexto social em que vivemos. Os romanos iam ao Coliseu para verem pessoas sendo despedaçadas pelas feras; nós rejeitamos a morte como diversão, ainda que a violência possa estar presente em esportes e filmes. Na Idade Média, a morte era um tema do cotidiano, ''menos oculta, mais presente, mais familiar''. A modernidade mudou este quadro. Em primeiro lugar, a expectativa de vida aumentou muito - a morte foi empurrada para a velhice. Em segundo lugar é, mais freqüentemente, um processo natural - resulta de doença, e se morre na cama (exceção feita para moradores de grandes cidades). Por último, a morte - e aí entendemos o título do livro - é uma coisa cada vez mais solitária. Sempre foi, naturalmente, mas esta solidão ficou exacerbada pelo tipo de sociedade individualista que vivemos, personificada naquilo que Elias chama de Homo clausus, o homem fechado em si mesmo. A morte agora ocorre no cenário neutro, isolado, do hospital moderno. E é nesta solidão que moribundo se perguntará pela sentido da vida. De novo, é uma indagação para a qual Elias não tem resposta. O sentido da vida é algo ''intimamente relacionado ao significado que se adquire, ao longo da vida, para outras pessoas''. Nós somos aquilo que, de nós, pode subsistir nos outros, uma idéia que a furiosa individualidade atual rejeita, com isso tornando ainda mais difícil a aceitação da finitude. Elias termina dizendo: ''O que as pessoas podem fazer para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas de morrer ainda está por ser descoberto (...). Talvez devêssemos falar mais aberta e claramente sobre a morte, mesmo que seja deixando de apresentá-la como um mistério''.

''Nada do que é possível pode salvar-nos'', diz W.H.Auden, acrescentando: ''Nós, que devemos morrer, exigimos um milagre.'' Ao contrário do bíblico profeta homônimo, que foi arrebatado para o céu num carro de fogo, Elias não pode nos oferecer um milagre - e se pudesse, não o faria através de um livro, este simples, modesto objeto. Mas ele pode nos ensinar a ''falar mais clara e abertamente'' sobre um tema que é difícil, senão quase impossível, de enfrentar. E, ao fazê-lo, ajuda-nos enormemente.

* Moacyr Scliar é escritor e médico

Sociologia que fez história

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