Sábado, 21 de Julho de 2001
Livros didáticos estão ultrapassados

A contribuição de pesquisadores estrangeiros sobre a escravidão não deve ser desprezada. Entre eles, figuram nomes de peso como Paul Lovejoy, John Thorton, Joseph Miller, Stuart Schwartz e Mary Karash, especialista americana responsável por mostrar uma face ainda mais terrível da escravidão brasileira: que ela foi basicamente uma exportação de crianças e adolescentes.

Se as mulheres eram a minoria nos navios negreiros, elas eram a maioria absoluta dos alforriados. ''Isso se dava porque elas conseguiam atuar com mais eficiência na política e no mercado'', explica Manolo. ''Como domésticas, eram mais próximas do senhor, eventualmente tendo filhos com ele. Ao mesmo tempo, monopolizavam o pequeno comércio da cidade e, assim, conseguiam juntar seu próprio dinheiro.''

Quem acredita que ser escravo é o oposto de receber qualquer pagamento por seu trabalho vai estranhar que, desde o século 17, seja possível encontrar registros de grande quantidade de ex-escravos que possuíam seus próprios escravos. ''Muitos se alforriam, compram seus próprios escravos e voltam para a África'', afirma o historiador, que atualmente se debruça sobre 15 mil cartas de alforria, tentando compreender a complexa questão dos libertos e sua ascensão social dentro de uma sociedade escravocrata. ''Tenho trabalho para uns cinco anos'', festeja.

Ascensão - Embora tenha sido dos últimos a abolir a escravatura, o Brasil foi o país que mais alforriou escravos em toda a América e contou com a maior participação da população de cor entre as diversas camadas sociais. É uma das contradições do modelo escravagista brasileiro mais difíceis de entender, reconhece Manolo. ''Você traz do cativeiro certos valores políticos e joga no mundo dos livres. Cria, além de uma mestiçagem epidérmica, uma mestiçagem política'', comenta. O resultado é uma sociedade altamente hierarquizada e prepotente.

Por causa dessa contradição, ele acha que o marxismo não é capaz de explicar a escravidão. ''Aliás, o problema do marxismo não é só com a escravidão, é com a história. Num país como o Brasil, que é tão complexo justamente por causa de coisas como o tráfico e a miscigenação, a gama de questões que se coloca a todo momento ultrapassa a capacidade explicativa de quem se fixa em determinismos históricos'', declara.

Nos grandes centros de referência historiográfica brasileira, como a UFF, a UFRJ, a USP e a Unicamp, a influência da história cultural tem sido avassaladora. ''Nos últimos 20 anos, ela substituiu o conceito de modo de produção. Agora tudo é representação. Eu vejo as teses de hoje. O pesquisador pode estar fazendo a história do pé de Jamelão em Caicó. Ele sempre vai citar o Chartier e o Bourdieu. Chega a ser engraçado'', critica.

Mais leve e acessível, a história cultural também é responsável pelo interesse cada vez maior do grande público por livros de história do Brasil. Alguns deles se tornaram verdadeiros best-sellers, transformando-se num filão que vem despertando interesse cada vez maior do mercado editorial nacional.

Enquanto a história econômica desce ladeira abaixo, cresce cada vez mais a atração pela história política, principalmente por pesquisadores da UFRJ e da Unicamp. ''Para a escola econômica, é uma guerra perdida. Nunca mais vamos voltar aos anos 70. Graças a Deus. Leio aquelas coisas que a gente fazia e morro de rir'', diz.

Freyre - Com a sedução da história cultural, aumenta a cada dia o cacife de um dos seus pioneiros: Gilberto Freyre. Para Manolo, Freyre não foi um historiador no sentido exato do temo, embora tenha se voltado, muito antes da escola francesa dos Anales, para o estudo do cotidiano. ''Ele foi um precursor ao transformar tudo em objeto de reflexão, de modinha a receita de bolo'', reconhece. ''Mas ele era, antes de tudo, um escritor. Por isso, escreveu com tanta liberdade. E essa liberdade fez com que tivesse vários insights fundamentais para se entender este país.'' Se as conclusões de Casa-grande & senzala podem ser aplicadas no resto do Brasil, Manolo tem dúvidas. Mas aí já são outros 500.

O único mito que o historiador mantém de pé, nessa revisão da escravidão, é o de que ela foi a grande culpada por todos os males deste país. ''Só lamento que, mesmo os que vivem repetindo isso, nem sempre levam a questão a sério'', critica. Para ele, o problema é que o Brasil é um atentado à química social. ''Você exclui um sujeito e miscigena com ele. Isso não tem lógica.''

Sua hipótese é que o país viveu, e ainda vive, um processo muito específico de ascensão social, que faz com que a cor seja matizada conforme a camada social. Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, em que uma pessoa com 1/16 de sangue negro é considerada negra, no Brasil a cor da pele é relativa. ''É um fenômeno interessante, quando o escravo vai ascendendo, ele vai perdendo a cor. O racismo brasileiro é um racismo de posição. Essa é a grande especificidade da escravidão brasileira. Aqui tudo depende da posição social. Sempre foi assim. Isso explica muito deste país'', comenta.

O historiador só lamenta que essa nova história da escravidão não se reflita nos livros didáticos. Segundo ele, há um gap entre a pesquisa de pós-graduação e o que chega aos bancos escolares. ''Nos anos 60, o livro didático era baseado na historiografia do século 19. Hoje, no que era feito nos anos 60'', reclama. O resultado seria uma visão esquematizada da história. ''Isso prejudica as crianças negras. Nenhuma vai querer se identificar com a imagem de um escravo maltrapilho que apanha o tempo todo'', imagina. Os próprios historiadores são responsáveis por esse problema, segundo ele. ''A culpa é nossa, porque o historiador acha que o livro didático é arte menor, que o importante é publicar tese de doutorado. Com isso, estamos deixando nas mãos de pessoas amadoras e despreparadas a formação de nossos filhos.''

A escravidão e seus mitos

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