- Na última bienal do Rio, num debate no café literário, você brincou que é um worst-seller. A que você atribui o fato de ter prestígio com os críticos, a ponto de alguns deles o considerarem o melhor escritor de sua geração e, por outro lado, vender pouco?
- Eu nunca soube que alguém me considerasse o melhor de coisa alguma. Isso simplesmente não existe. As circunstâncias do comércio e da produção de livros não têm nenhuma relação com os motivos que nos levam a ler um livro. Nem com as razões para um livro existir.
- Você concorda que a literatura brasileira contemporânea tem pouco espaço junto ao leitor? Por quê?
- A insistente valorização dos números e das cifras, em lugar de se discutir a qualidade e a substância dos livros, é que tem tirado o espaço e o tempo do leitor.
- Ainda assim você consegue viver de literatura. Como?
- Ganho a vida como tradutor e professor. Como disse um humorista, não é por ser escritor que não sou capaz de ganhar a vida honestamente.
- O que você acha dos escritores de sua geração? Quem você lê e aprecia?
- Nos últimos anos, vi surgirem pelo menos dois ficcionistas de qualidade excepcional: Bernardo Carvalho e André SantAnna. Não é pouco. Haverá outros, mas ainda não tive sorte de ler. Na poesia, não há como ignorar a qualidade do que escrevem Carlito Azevedo, Heitor Ferraz, Paulo Henriques Britto e Lu Menezes, por exemplo.
- O que anima você a continuar a escrever?
- O que leva alguém a escrever tem de ser algo como a fome, o sono, a sede. Algo que falta. Uma carência. A sensação de que o mundo não está completo. Tem de ser também um impulso físico. A mão quer riscar, escrever, amassar, deixar uma marca. Tem de ser um contra-ataque. Também é por isso que se lê.