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O melhor da ficção nacional
Rubens Figueiredo se consagra como um dos maiores talentos de sua geração
FLÁVIO CARNEIRO *
BARCO A SECO
Rubens Figueiredo
Companhia das Letras, 192 páginas
R$ 24,50
Comparado a alguns de seus contemporâneos, Rubens Figueiredo publica pouco. O próprio Rubens afirmou certa vez, numa entrevista, que isto se dá porque ele divide seu tempo de escritor com o de professor de português. Pode ser, mas o que parece mesmo é que o autor só envia os originais de seus livros ao editor quando já passaram pelo crivo de uma severa auto-crítica, quando, depois de bem enxugados, se apresentam ''secos'', daquela ''secura'' a que se refere João Cabral de Melo Neto, e que nada tem a ver com pobreza mas com justeza de linguagem. O título do novo romance remete a esta economia da palavra que Haroldo de Campos já chamou de ''poesia menos'', designando, assim, uma escrita -- em verso ou em prosa - que prima pelo corte e não pelo excesso.
Se é certo que Barco a seco é pura ''poesia menos'', escrita madura, pautada pela exatidão da frase, lê-lo apenas a partir daí pode ser, no entanto, um gesto limitado, sobretudo porque o título, à medida que percorremos as páginas do livro, vai adquirindo outros sentidos, mais sedutores.
É no mar que a história começa, se desenvolve e termina, se é que termina. O narrador, Gaspar Dias, é um crítico de arte, especialista na obra do pintor Emilio Vega. A biografia oficial de Vega o mostra como um excêntrico imigrante espanhol que morava num barco ancorado numa praia deserta e não pintava em telas mas em conchas, caixas de charuto, pedaços de louça. Suas obras eram sempre paisagens marinhas, vendidas na cidade ou trocadas por roupa, comida, pincéis e tinta. Era um homem rude, alcóolatra, que teria morrido afogado no mar. Gaspar Dias se dedica à obra e à reconstituição da vida do pintor tentando provar que tudo isso não passava de uma lenda, que Emilio Vega tinha sido um artista incompreendido pelos historiadores. Gaspar trabalha como perito numa galeria de arte, cabendo a ele autenticar ou não a legitimidade das obras de Vega que são oferecidas à galeria. Certo dia, ele recebe a visita de um velho, Inácio Cabrera. O surgimento de Cabrera dá início a uma reviravolta na vida de Gaspar, e é a partir daí que a história toma rumos inesperados. O que até então parecia verdadeiro, para Gaspar e para o leitor, começa a gerar desconfiança, novas versões dos fatos vão moldando uma outra perspectiva, colocando sob suspeita tudo o que veio antes e, em conseqüência, o que virá a seguir.
A ambigüidade é um traço marcante da prosa de Rubens Figueiredo. Já no primeiro romance, O mistério da samambaia bailarina, que ecoava ainda certo experimentalismo dos anos 70, aliado a um humor que iria persistir até a publicação de O livro dos lobos, é possível observar em sua obra um apreço especial pelo jogo das aparências, das pistas falsas, como numa espécie de sala de espelhos, onde uma imagem remete não ao objeto real mas a outra imagem. A dúvida se converte na matéria-prima da escrita, e isso talvez ajude a entender a presença recorrente do tema do duplo, que já aparece, de forma mais consistente, em alguns contos de As palavras secretas e é retomado em Barco a seco. Na tentativa de traçar um retrato de Vega, de transformar sua versão do pintor na única verdadeira, Gaspar vai aos poucos tomando para si a feição do outro. A busca do retrato do outro revela-se, afinal, a procura de um imprescindível, e cada vez mais distante, auto-retrato. Gaspar se duplica em Vega, quer dizer, no seu Vega. Não bastasse tal duplicidade, Gaspar se depara com outra: Inácio Cabrera também tem seu duplo, e, quem sabe, talvez seja o mesmo de Gaspar. Em Barco a seco, como sugere o aparente paradoxo do título, ninguém é exatamente o que parece ser.
A falta de uma identidade faz com que Gaspar, Vega, Cabrera sejam, cada qual a seu modo, estrangeiros cujo país de origem foi destruído, junto com qualquer memória que pudesse revelar o mapa de seu antigo território. Destituídos da fala que se espera deles e sem a possibilidade de um retorno - retornar para onde? - vivem a marginalidade dos que não têm lugar. São como barcos encalhados na areia, ou como aqueles pintados por Emilio Vega, barcos ''cuja perfeição reside em não ter um lugar no mundo nem fora do mundo''. A pintura de Vega só se torna possível nesse espaço fronteiriço, nem fora nem dentro do mundo, e compreendê-la, ou recriá-la, como percebem Cabrera e Gaspar, significa lutar o tempo todo com fantasmas. Não por acaso, a palavra ''limite'' aparece com freqüência no relato de Gaspar. É sempre no limite entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o justo e o injusto que o narrador elabora sua versão dos fatos e a ela se apega com unhas e dentes, até que se revele, irremediavelmente, falsa.
Barco a seco é, também, um romance de poeta e pintor. O humor cáustico presente, por exemplo, em livros como Essa maldita farinha e A festa do milênio cede lugar à poesia e a um tratamento do texto que o aproxima da linguagem pictórica. A obra de Emilio Vega era marcada por um princípio básico, o de trabalhar ''bem perto, dentro mesmo da paisagem que se pinta'', como afirma o narrador, e a forma de construção do romance de Rubens Figueiredo segue preceito semelhante. Ao falar de Emilio Vega, pintor e, ao seu modo, poeta, a escrita incorpora cenas que lembram a descrição lírica de um quadro, como na passagem: ''As ondas às vezes se estendem lisas, na beira da praia, quando descem de volta para o mar. Seu toque apenas descola a areia de cima. A água escorre sem força para puxar um brinco ou um anel, que uma fagulha de sol aponta por um instante.'' Travestida de pintura e poesia, a narrativa se projeta no seu próprio tema, exercitando assim, no próprio ato de escrever, a duplicidade que norteia Barco a seco.
Mesmo escrevendo romance, o contista Rubens Figueiredo não sai de cena. Disfarçado, se deixa entrever na forma como são montados alguns dos capítulos, verdadeiros contos incrustados numa narrativa longa. Essa mistura de gêneros, aliada à já referida duplicidade e, ainda, à forma não linear como é tratado o tempo - passado e presente se intercalam - conferem ao novo livro do autor um alto grau de sofisticação. Melhor ainda: o resultado dessa sofisticação não é um romance obscuro, de difícil leitura, pelo contrário, é suave, envolvente, escondendo e revelando aos poucos seus pequenos segredos, um relato sinuoso, traiçoeiro às vezes, como as ondas do mar.
* Flávio Carneiro é escritor e professor da Uerj. Na Bienal, estará lançando 'Entre o cristal e a chama: ensaios sobre o leitor' (EdUerj)
''Escrever tem de ser algo como a fome''
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