Domingo, 22 de Abril de 2001
Curso pós-médio, alternativa restrita às classes populares

ELIANE BARDANACHVILI

emp1dom.jpg Aumentar as opções de formação profissional do jovem que conclui o ensino médio, oferecendo-lhe além da universidade, a possibilidade de formação em nível técnico, em cursos pós-médios, pode ser uma medida positiva à primeira vista. Ela, no entanto, precisa ser examinada com cautela, quando se constata que, de antemão, o público que procura os cursos técnicos pós-médios é sempre o de classes populares, enquanto que os jovens favorecidos economicamente continuam a ocupar os bancos das universidades, sobretudo as públicas. Para a pesquisadora Sônia Regina Mendes, diretora adjunta da faculdade de Educação da Baixada Fluminense/Uerj, a busca do governo federal por ampliar as vagas nos cursos técnicos, pode ser interpretada como uma ''medida de contenção'' do jovem brasileiro - a maioria de classe popular - no nível médio. ''São mecanismos para que os jovens demandem menos a universidade'', diz Sônia, doutora em Educação pela Uerj, em entrevista ao Jornal do Brasil. Em sua pesquisa, que trata do perfil dos cursos pós-médios e dos alunos que os freqüentam, Sônia realizou 331 entrevistas e obteve um retrato nítido do jovem no país e de seus anseios por se manter estudando. ''Eram alunos de mais de 25 anos, subempregados, enfim, desqualificados profissionalmente, e que haviam concluído o ensino médio há mais de cinco anos'', conta. ''Muitos haviam tentado fazer um curso superior, sem êxito''. Para Sônia, providências como reservar uma cota de vagas nos cursos técnicos a alunos egressos de escolas públicas não passam de paliativo. ''Na Escola Técnica Federal de Química, os alunos da rede estadual que preencheram as vagas reservadas não tinham condições de se manter na escola, de se alimentar, de não trabalhar, para passar o dia todo lá'', constatou ela, para quem as diversas opções de formação do jovem só serão de fato democratizadas, quando todos puderem alcançá-las munidos de uma educação de qualidade. ''Com um ensino fundamental e um ensino médio ainda precários, não se abrem chances para ninguém''.

- Por que a senhora decidiu pesquisar os cursos pós-médios, em geral, pouco conhecidos como alternativa para o jovem prosseguir seus estudos e sua formação?

- Segui a linha de trabalho do professor Luiz Antonio Cunha (professor titular da Faculdade de Educação da UFRJ), que, entre 1993 e 1994, tinha feito um estudo sobre mecanismos de contenção de jovens brasileiros no então segundo grau, sem acesso ao ensino superior. Ele localizou nas políticas públicas de educação esses movimentos de contenção, mesmo porque não havia como atender todos os egressos do Ensino Médio no nível superior. Para a grande crise do sistema educacional na década de 60 também buscou-se solução parecida: criaram-se mecanismos para que os jovens demandassem menos a universidade, como a própria Lei 5.692, que antecipou a profissionalização para o Ensino Médio, com os cursos profissionalizantes obrigatórios. Só que isso acabou não sendo um estímulo para que o jovem desistisse de ir para a universidade e o vestibular tornou-se, então, a grande barreira impeditiva desse acesso.

- O que se observa é que a demanda por formação profissional sempre foi maior do que a oferta...

- Sim. Além do segundo grau profissionalizante compulsório, previsto na Lei 5.692, já havia, na década de 70, a possibilidade de os egressos do nível médio de ensino fazerem cursos técnicos específicos. O sistema de ensino supletivo criou a modalidade de formação técnica com cursos noturnos. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) de 1996 e o decreto federal 2.208, de 1997, que propõem a separação do curso técnico do ensino médio, trazem isso como grande inovação. No entanto, os cursos técnicos estritos já eram oferecidos antes disso.

- Como a senhora analisa essa separação?

- A experiência de algumas instituições, como os Cefets, que ofereciam seus cursos técnicos integrados ao Ensino Médio, era muito exitosa. Os cursos não tinham problema. O que tinha problema era quem fazia os cursos - sempre a elite. Os cursos técnicos de boa qualidade e com formação no ensino médio, sempre acabaram atendendo mais os jovens da classe média alta, que iam para o curso técnico não com planos de trabalhar em seguida, mas de cursar uma universidade depois. Portanto, não utilizariam a formação técnica para ir ao mercado de trabalho, como faria um jovem de classe popular que estivesse naquela vaga.

- Essa separação não torna o curso técnico menos atraente para os jovens da elite, uma vez que será preciso gastar mais tempo para cursar o técnico e o médio ao mesmo tempo?

- Realmente, ao se tirar das instituições de formação técnica o compromisso com o ensino médio, as vagas para o curso técnico puderam aumentar. E essa era a intenção do governo. Só que, mesmo assim, elas continuaram a ser ocupadas principalmente pela classe média. Os pais desses jovens sabem que podem dar ali aos filhos um ensino médio de qualidade, gratuito, além da formação profissional, ''por via das dúvidas''. Além disso, separados, os cursos técnico e médio ficam inacessíveis para as classes populares. Os jovens de classe média não precisam trabalhar, têm tempo para passar o dia todo na escola, têm famílias que os sustentem etc. O jovem das classes populares vai fazer o ensino médio, no sufoco, à noite, depois de um dia de muito trabalho, e, depois, vai tentar uma formação profissional que só virá para ele nos cursos pós-médios, em nível técnico.

- De que forma se democratizaria o acesso de classes menos favorecidas a uma boa formação profissional, junto com o Ensino Médio ou logo após sua conclusão?

- Com um ensino fundamental e um ensino médio precarizados, nunca se abrem chances para ninguém. Aí, começa-se a lançar mão de paliativos, como o de reservar um percentual de vagas nas escolas técnicas, para quem é oriundo do sistema público estadual. Mas será que isso contribui para melhorar o sistema de ensino? A Escola Técnica Federal de Química fazia um convênio com a Secretaria de Estado de Educação, para que os alunos da rede estadual fizessem a formação técnica lá, de forma concomitante. Mas o que acontecia com os alunos que entravam? Não tinham como se manter na escola, como se alimentar, já que tinham que passar o dia todo lá; e as famílias não tinha condições de mantê-los estudando apenas, sem trabalhar. Então, não adianta abrir determinadas possibilidades, se deixarmos de lado todo o contexto do aluno. O melhor mecanismo contra tudo isso ainda é garantir um ensino fundamental e médio de qualidade.

- Qual o perfil dos alunos dos cursos pós-médios que a senhora pesquisou?

- Eram alunos de mais de 25 anos, subempregados, desempregados, enfim, desqualificados profissionalmente, e que haviam concluído o ensino médio há mais de cinco anos. Muitos haviam tentado fazer um curso superior, sem êxito, e ao descobrirem a possibilidade de cursar um pós-médio acharam ótimo, porque passariam a ter a chance de ingressar em algum tipo de formação profissional. Para alguns, representava até status estar fazendo o curso, uma volta ao banco escolar, uma busca de qualificação profissional. E, para quase todos, um estímulo para continuar tentando fazer o ensino superior. Achavam que para ascender na empresa em que fossem trabalhar seriam mais valorizados se cursassem uma faculdade.

- Apesar da demanda por formação profissional, s cursos pós-médios são pouco conhecidos?

- Para fazer meu estudo sobre o perfil e a trajetória dos alunos que foram buscar essa modalidade de ensino técnico, foi difícil localizar onde esses cursos estavam. Existiam muito poucos no Rio de Janeiro. Localizei no sistema Senai (Instrumentação, Programação Visual, Edificações, Eletrotécnica, Mecânica), no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), que oferecia cursos técnicos pós-médios (Saneamento, Segurança no Trabalho e Telecomunicações), além do Ensino Médio Integrado com o Técnico; e a Escola Técnica Federal de Química. Embora tivessem de dez a doze anos de existência, pouca gente sabia da existência deles. Assim, embora a demanda por se obter formação profissional fosse grande, a procura por esses cursos era pequena, entre um e dois candidatos por vaga.

- A existência dos cursos pós-médios não pode ser considerada um avanço, uma vez que eles podem representar mais uma opção, que não seja a faculdade, para a formação profissional do jovem? Não seriam democráticos?

- Ao pesquisar as origens dos cursos pós-médios, foi muito interessante verificar que eles se baseavam na experiência americana, de formação profissional não-universitária, os colleges, cursos de pequena duração que dão formação profissional para inserção imediata no mercado de trabalho. No Brasil, eles são democráticos e não são. Se pensarmos que os pós-médios vão se concentrar no atendimento a uma determinada camada da população, nada há de democrático. A elite nunca vai considerar o pós-médio como opção. Vai optar sempre pela universidade. Agora, o Cefet fez de seus pós-médios cursos superiores, para formarem tecnólogos. Essa mudança de conceituação e na forma de organizar o curso atrai também a elite. O curso pós-médio pode ser uma boa opção. Apenas não pode ser pensado para conter a camada popular em sua trajetória rumo à universidade.

- A universidade deve ser acessível a todos? Deve dar conta de toda a demanda? O que já era difícil não se torna ainda mais, com o aumento do número de alunos que vêm concluindo o Ensino Fundamental e chegando ao Médio, hoje?

- Os estudos do governo já prevêem um boom dos egressos do ensino médio. O número de matrículas nesta faixa de ensino saiu de 3,5 milhões, em 1990, para 7 milhões, em 1998, e o número de concluintes estava em 1,3 milhão, em 1997. Esses jovens vão bater na universidade, fazendo uma pressão social muito intensa. Não haveria problema se muitos deles optassem pelos cursos pós-médios. Só que a trajetória a ser seguida por cada jovem vai depender sempre de sua origem.

- De que forma?

- Se o jovem é aquele que chegou ao fim do Ensino Médio com os esperados 17 anos, cuja família arca com os cursos de pré-vestibular e que tem tempo para estudar, terá um caminho. Se o jovem é aquele que fez curso noturno, é trabalhador, e que não espera encontrar êxito em um processo seletivo para universidade pública, terá outro. Boa parte da população não tem lugar na universidade. Os alunos dos cursos pós-médios que entrevistei para a pesquisa já haviam tentado, insistentemente, entrar em uma universidade pública. Fizeram o Ensino Médio, não tiveram condições de pagar um curso pré-vestibular, tentaram até três vezes passar para uma universidade e, só então, foram buscar uma profissionalização de nível técnico. Que jeito? Há um outro tipo de perfil, ainda: o daqueles que chegaram a ser aprovados para uma universidade pública, mas não conseguiram se manter. Eram cursos de horário integral, o que não possibilitava que eles continuassem trabalhando. Não conseguiram sobreviver em um sistema todo montado para atender a um público não-trabalhador.

- Que relação têm os alunos dos pós-médios com seus cursos?

- Eles têm muita expectativa, vão com uma crença muito grande. Afinal, que entrada tem no mercado de trabalho uma pessoa que termina o nível médio, puro, sem profissionalização? Uma profissionalização pode mudar um pouco isso. Ouvi muitos relatos como ''com esse curso vou, finalmente, poder me candidatar a um posto de trabalho em uma instituição''. A pessoa torna-se alguma coisa: um químico, um mecânico etc. Acompanhei os alunos até a fase dos estágios e havia muitos chamados para eles, com remuneração, muitas vezes, maior do que a recebida no emprego onde estavam. Jovens que trabalhavam em postos de baixa qualificação, como office boy ou auxiliar, em geral, ascendiam em sua condição profissional já no estágio. Há muita expectativa.

- Hoje, no entanto, o mercado exige mais do que um diploma provando que se é alguma coisa. O mercado quer habilidades, competências desenvolvidas, capacidade de análise, de reflexão, de trabalhar em equipe, enfim, atributos que vão além das disciplinas técnicas curriculares...

- No momento em que foi feito o decreto federal separando os cursos técnicos do médio, o Cefet, por exemplo, estava fazendo uma reforma curricular interna, repensando a educação tecnológica, as competências, os saberes de forma integrada, enfim, revendo a formação oferecida, para garantir um olhar mais amplo do profissional que formavam. Todas as escolas em que fiz a pesquisa estavam revendo seus projetos pedagógicos de forma a fazer um ensino técnico super avançado em termos de Brasil, que reunisse em uma mesma escola uma formação humanista, integral, junto com a formação técnica. Isso acabou sendo abortado com o decreto que separa o ensino técnico do médio. A intenção da LDB foi de expandir o número de vagas de nível técnico, mas o formato escolhido não sei se vai atender a classe popular que faz um sacrifício muito grande para se manter estudante.

- Há espaço no sistema de ensino para o aluno trabalhador?

- Não temos uma lei no país que proteja o aluno trabalhador, teríamos que avançar muito nisso. Quem sabe com uma carga horária menor de trabalho. O que há, hoje, é uma sobrecarga para quem trabalha oito horas por dia e ainda estuda à noite.

- Os cursos pós-médios são afinal positivos ou negativos?

- Eles têm um lado altamente positivo de dar uma opção de formação profissional a esses jovens. No entanto, acontecem tardiamente na vida desses alunos. Além disso, é preciso que estejam muito afinados com o mercado de trabalho a fim de que não se desenvolvam descolados das demandas desse mercado e garantam possibilidade real e concreta de ingresso nele. Sempre voto pelo ensino técnico integrado ao médio, que se extinguiu. Sem essa possibilidade, os cursos pós-médios estão mais próximos da vida dessa faixa de jovens que eu pesquisei do que o técnico e o médio cursados juntos, de forma concomitante.

- Se o governo tivesse a intenção de conter os jovens fora da universidade, não teria investido mais na proliferação dos pós-médios?

- Mas o governo fez isso, de alguma forma, ao separar o ensino técnico do médio, abrindo mais vagas para a profissionalização técnica. Foi aberta a possibilidade até de se fazerem cursos modulares (isto é, em módulos, que garantem certificações parciais e possibilidade de inserção imediata no mercado, após cada um desses módulos), nas várias instituições. E o governo sabe que quem vai fazer os cursos pós-médios é o grupo que não vai para a universidade.

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