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Só e em boa companhia


Solange Bagdadi

Que nos desculpe Tom Jobim, autor da canção Wave, em que diz: ...Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.... De 1967 - data em que o maestro escreveu a letra - para cá, muita coisa mudou. Prova disso é a estudante de moda Roberta Steinberg, 25 anos. Ela está sem namorado no momento mas garante que se diverte sozinha. E muito. Roberta não acredita que precisa de um parceiro para se sentir amparada psicologicamente. Está só, e feliz. A estudante vive na contramão da ditadura do amor romântico, responsável pela idéia de que só é possível ser feliz e realizado com alguém a tiracolo.

Antenada com os os novos tempos, a cantora Marisa Monte acaba de lançar o disco Universo ao meu redor com a faixa Satisfeito, em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. A música fala exatamente da felicidade de estar sozinho. Segundo a cantora, a idéia partiu da vontade de responder à musica Wave, de Tom Jobim.

- Buscamos inspiração na música do Tom Jobim. Ao contrário do que ele canta em Wave, achamos que é possível ser feliz sozinho sim - diz Marisa.

Durante muito tempo, as pessoas foram obrigadas a acreditar que quem não tinha um companheiro estava excluído da possibilidade de realização pessoal e seria discriminado socialmente. Os homens que não se comprometiam eram considerados mulherengos. As mulheres que não casavam eram perseguidas pela crença de que ficariam encalhadas ou ''para titia''. Para a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, esta mentalidade mudou. O fato de estar só já não é mais uma tragédia.

De acordo com a psicanalista, as mulheres foram condicionadas a sentir-se completas e protegidas somente com um homem ao lado. Na cultura patriarcal, foram sempre consideradas incompetentes e eram educadas para ficar sozinhas apenas no espaço privado. A auto-estima delas sempre esteve atrelada ao homem.

- Os homens, ao contrário do que se pensa, foram igualmente prejudicados pelo patriarcalismo. Essas vivências aprisionaram homens e mulheres - opina a sexóloga.

Os jovens empresários Fred Weissmann, 28 anos e Marcelo Werneck, 30, estão sem namoradas. Sócios de um mesmo negócio - são proprietários do bar Saturnino, na Jardim Botânico - têm opiniões diferentes sobre ficar só e estar feliz ao mesmo tempo. Para Fred, não namorar pode ser bom ou ruim. E para Marcelo, a falta de uma namorada pode ser substituída pela companhia dos amigos ou por uma viagem, experiências igualmente prazerosas.

- Gosto da liberdade. Eu me basto. Adoro namorar, mas preciso de pelo menos uma ou duas horas para ficar comigo mesmo. É a hora em que me cuido e resolvo minhas questões internas - analisa Fred.

Ele afirma que numa relação amorosa, tem dificuldade de colocar limites à companheira. Por isso, também, a necessidade de ter momentos só dele.

- Agora, estou só e em paz, embora aberto a novos relacionamentos. Namorar é muito bom também - admite Fred.

Segundo o psicólogo social Bernardo Jablonski, a tendência atual é de mixed emotions (emoções confusas). Desejamos a liberdade, mas quando estamos sozinhos, sentimo-nos mal e desconfortáveis.

- É uma sensação difusa, quase de fracasso, como se quiséssemos saber onde erramos. Na verdade, a gente nunca sabe onde colocar o desejo. Os jovens, por exemplo, querem só ''ficar'', mas reclamam também dessa condição - afima o psicólogo.

Jablonski ressalta que, apesar dos sentimentos confusos, hoje é muito mais fácil ficar sozinho.

- Antigamente não existia vida fora da família e nem dos relacionamentos. Hoje temos delivery de tudo, de comida, e até de sexo - destaca.

Para Jablonski, a procura pela felicidade, só ou acompanhado, depende das expectativas que são norteadas pela cultura. Nos Emirados Árabes, é normal ter quatro mulheres. Há 50 anos, era natural pais escolherem um casamento para uma filha ou filho. Hoje, temos mais liberdade e estamos tremendamente atrapalhados.

- Possivelmente, não somos seres monogâmicos, mas temos que fazer opções. Toda escolha exclui outras. Se a pessoa está casada, tem saudades de ficar só. Se está solteira, quer casar-se. Isso é cultural ou faz parte da nossa natureza? Não sei, talvez ambos. Creio que gente ainda não sabe o que realmente quer - resume o psicólogo.

O empresário Luli Marcondes Ferraz, de 26 anos, demonstra bem os sentimentos ambivalentes citados por Jablonski. Ele não tem medo de ficar só, mas prefere estar acompanhado. Depois de namorar quase dois anos e emendar em outro relacionamento mais três, está curtindo a vida de solteiro.

- Estou sem namorada agora e está legal, mas estou sempre à procura de alguém - confessa Luli.


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[09/ABR/2006]


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