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Paz à mesa


Rafael Sento Sé

Mediadores da paz deveriam arrumar uma brecha na agenda e dar um pulo na carioquíssima Praça do Lido. Se não há sinais de cessar-fogo no horizonte lá do outro lado do Mediterrâneo, por aqui continuamos a provar que o encontro entre as culturas árabe e israelense pode ser amistoso.

- Rapaz, estou impressionado como você emagreceu! - elogiou perplexo o libanês Nicolas Habre, ao encontrar o judeu israelense Remyr Madmon, que abriu o Narguila Café no início do ano na Rua Ronald de Carvalho, onde funciona o Amir, de propriedade de Nicolas.

Na última vez em que os dois se encontraram, o israelense estava bem mais perto dos 130 quilos do que dos 80 e poucos atuais. Daí a perplexidade de Nicolas ao rever o dono do restaurante vizinho. Remyr também notou que o libanês estava diferente.

- Depois quero pegar o telefone do seu jardineiro - retribuiu Remyr, apontando para a discreta e ''recém-plantada'' cabeleira do outro.

A conversa se deu numa das mesas do bem decorado Amir, que, desde o início do ano, tem a concorrência do Narguila. A distância entre as culturas árabe e judaica é a de uma avenida, a Nossa Senhora de Copacabana, que corta a rua onde as casas estão instaladas.

À mesa, a diferença também não é grande. O Narguila, explica Remyr, serve comida israelense, o ramo da culinária judaica mais influenciado pelo sabor das Arábias. Lá, como nas casas árabes, são encontrados falafel, pasta de grão-de-bico e tabule com diferenças na forma de preparo.

- Nosso falafel é menos carregado de condimento - compara Remyr.

O judeu abriu mão de servir comida kosher para atrair a clientela carioca. Este tipo de comida é todo preparado segundo a tradição judaica religiosa. Boi e vaca são sacrificados num ritual que, segundo os ortodoxos, amenizam o sofrimento do animal. Além disso, carne e queijo não podem ser comidos juntos, nem mesmo a faca que corta um pode ser usada para cortar o outro.

Remyr gosta de falar que serve o fast-food israelense. Um dos fortes do cardápio é o sanduíche no pão mais grosso do que o árabe. Temperos, especiarias e até mesmo azeitonas são importados de Israel.

No vizinho Amir, boa parte dos ingredientes também é importada. Um dos fortes da casa é o mix de comidinhas árabes: miniesfirras, miniquibes, falafel, pasta de grão-de-bico e coalhada seca. Também faz sucesso o churrasco grego de cordeiro. No Oriente Médio e no Lido, a iguaria faz sucesso.

- Aqui você vai comer como se estivesse no Líbano - garante Nicolas.

As duas casas contam com varandas para fumar narguilé, que pode ser abastecido com tabaco aromatizado de maçã, banana, chocolate e mentolado.

No Arab, na Avenida Atlântica, não se fuma pela paz, mas as duas culturas também convivem - e bem. A dona, Vivian Arab, descendente de árabes, é casada há mais de 10 anos com um judeu, o psicanalista Chaim Katz. Desde o ano passado, o restaurante árabe tem um cardápio judeu, batizado de Noite em Jerusalém.

- De certa forma, é uma homenagem ao meu marido. Foi com a mãe dele que conheci a comida judaica - explica Vivian.

A restauratrice serve a comida do tipo sefaradi, semelhante à arabe, e também a esquenazi, dos judeus provenientes do Leste Europeu. A beterraba é uma estrela que dá sabor a sopas, como a borscht, e molhos. O hrein, por exemplo é feito do tubérculo misturado à raiz forte. O guefilte fish, um bolinho de peixe preparado no forno, é servido em ocasiões festivas como o Rosh Hashaná. No Arab, ele está no mix árabe-judaico, junto a borekas, um pastel judaico, miniquibes e pastinhas.

- Seria bom se esse encontro se desse não apenas na área do paladar - imagina Vivian.


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[09/ABR/2006]


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