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Na quebrada do funk
Com o aval de patricinhas, o ritmo invade as festas da Zona Sul
Joana Dale
[20/NOV/2005]
Sexta-feira, meia-noite em ponto. Hora marcada para as patricinhas da Zona Sul e da Barra se aventurarem no desconhecido território de Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Antes mesmo de atravessarem o portão do Castelo das Pedras, as jovens de calça jeans e camiseta - bem básicas, para não chamar a atenção - lábios brilhantes de gloss e argolas prateadas nas orelhas, misturam-se às moças da comunidade. No baile funk, a cidade partida é colada: os dois Rios de Janeiro se unem ao som da batida frenética e no ritmo de coreografias despudoradas.
O relógio marca duas da matina e uma pequena euforia toma conta do Castelo das Pedras, onde já se aglomeram quatro mil pessoas, cujos corpos suados se esbarram com ou sem segundas intenções: está na hora de Márcio André Garcia, 28 anos, subir ao palco. As meninas gritam, se descabelam e rebolam até o chão quando o MC Marcinho solta a voz grossa e sensual e começa a cantar Glamourosa.
A mesma ansiedade foi vista na última segunda-feira, véspera de feriado, na Fundição Progresso, na Lapa - isso mesmo, no reduto da boemia carioca. Ali, o MC Marcinho - que não tem oito horas seguidas de sono há quatro meses - teve igual recepção calorosa. Por noite, ele faz seis shows no Rio e o jeito é tirar uma soneca na van. Da Fundição, na segunda, ele foi para a boate São Thomé, na Barra da Tijuca. Lá, mais uma centena de popozudas endinheiradas botou a mão no joelho, deu uma abaixadinha e cantou junto.
Algumas, no entanto, não cantam junto qualquer funk. A estudante Luisa Vieira, de 20 anos, rebola até o chão mas não gosta de letras pornográficas. Por isso, é fã do MC Marcinho.
- As músicas dele falam de sentimentos. A gente fica até envergonhada com algumas letras pesadas de hoje - declara Luisa, moradora do Flamengo e aluna da Facha.
O funk está dominando a ala jovem da cidade sem restrições nem preconceito. Vai com a mesma alegria para as boates da Barra e da Zona Sul, casas de show, chopadas de faculdades, festas infantis e continua batendo ponto nos bailes da favela. Rendidas pela batida e espontaneidade, as jovens de classe média, seguidoras, ouvintes e dançarinas do funk, vão até o limite da cidade - ou até onde os pais permitem - atrás de seus ídolos.
As irmãs Fernanda e Juliana Leiroz, de 20 e 18 anos, escolheram o Castelo das Pedras para debutar no mundo funk na penúltima sexta. Por ser a primeira vez, as irmãs preferiram comprar um camarote, pois não sabiam se rolariam brigas no meio da galera.
- Comecei a me interessar pelo funk depois que o ritmo passou a tocar nas boates que freqüento, como Baronetti e Nuth. Estou gostando muito do baile e pretendo voltar - disse Fernanda, que foi dirigindo da Barra até Rio das Pedras.
Quando chegou à comunidade, Fernanda ficou assustada com a movimentação e preferiu manter o vidro fumê fechado. Lá, pagou R$ 3 pelo estacionamento na rua do baile. Tudo isso sem que seus pais soubessem da aventura.
- Na comunidade de Rio das Pedras, não existe tráfico de drogas, e o local ainda é próximo da Zona Sul e da Barra. Por isso, o Castelo virou ponto de referência - afirma Marcio José Vasconcelos, o dono, ou melhor, o rei do Castelo das Pedras há nove anos.
O gênero surgiu nos EUA nos anos 70, derivado do blues e do soul. Por aqui, a palavra foi mantida mas o funk carioca bebeu mesmo na fonte do Miami Bass. Ao fazer uma análise da evolução do funk carioca, da década de 1990 para cá, Márcio vê muitos altos e baixos... e altos de novo, como o atual momento.
As amigas Íris Alves, de 26 anos, e Cristiane Melo, de 25, moradoras da Barra, contribuem para o funk estar no topo das paradas de sucesso. Mesmo acreditando que o Castelo é tranqüilo e que lá não acontecem brigas, na segunda ida ao baile, elas também escolheram um camarote para curtir o show do MC Marcinho com mais conforto.
- O funk é a batida da periferia, mas aqui as classes sociais se misturam - afirma Íris.
A moça entrou no clima do baile e deixou algumas preferências de lado.
- Só bebo champanhe, mas aqui acabo mesmo na cerveja - conforma-se Íris, enquanto ''bate bundinha'' com Cristiane.
O show do MC Marcinho causou a mesma comoção na Fundição Progresso. Ali, grupinhos de patricinhas esperavam o MC tendo como pano de fundo os Arcos da Lapa. A engenheira Renata Despinoy, 24 anos, foi conferir o evento ao lado da professora Silvia Falbo, 26, e da estudante Marcela Veloso, 20. Quando o locutor anunciou que Marcinho ia entrar em cena, as três foram à loucura.
- O Marcinho é o amor da minha vida. Já subi no palco e dancei com ele no Hard Rock Cafe - dispara Marcela, do alto de seu chinelo Reef, vestindo um modelito básico: saia jeans e batinha.
- Gosto do Marcinho desde que começou a carreira. Mesmo quando o funk estava em baixa, continuei ouvindo as músicas em casa. Agora que o funk está mais elitizado, posso freqüentar todos os lugares - comemora Renata.
O trio partiu em busca de um lugar na fila do gargarejo. Tudo isso para ver o ídolo de perto. A estrutura do show é simples. Marcinho canta só com um microfone, enquanto um DJ garante as bases. É a mesma estrutura enxuta com que se apresenta o MC Leozinho, o Leonardo Freitas Mangeli, 28 anos, nascido e criado em Niterói. Depois que estourou com Se ela dança, eu danço, ganha cachê de R$ 3.500 por apresentação, que dura cerca de 40 minutos. Evangélico, Leozinho não bebe. Mas tem feito muitos brindes ao funk.
Algumas mães ficam de cabelo em pé com a empolgação das filhas com o batidão.
- Acho que o funk expõe demais o corpo das meninas. Mas deve ser um modismo passageiro - confidencia Maria Luiza Iatarola, 47 anos, mãe de uma jovem de 18 que pediu de presente de aniversário uma ida ao baile funk. Maria Luiza ainda está pensando no caso...
Mas será que os pais devem realmente se preocupar? Segundo o sexólogo Marcos Ribeiro, só se deve arrancar os cabelos se eles não fizeram o dever de casa, ou seja, se não estabeleceram os limites quando as filhas eram pequenas e não continuaram o trabalho durante a adolescência.
- Vivemos em uma cidade de cultura extremamente sensual, e o samba está aí para provar. O funk é uma batida muito envolvente. Profundamente lamentáveis são as letras de algumas músicas como Tô ficando atoladinha e Cachorra, sexistas, preconceituosas, que prestam um desserviço à população - opina.
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