... E o parceiro do tempo vagabundo
Ah, meu querido Vina! Saudade daqueles dias em que tínhamos tempo só pra ser felizes. E gozavas da plenitude de teus 57 anos... Hoje eu é que os tenho. As músicas fluíam e o tempo passava leve e vagabundo. Foste teimoso em enfrentar o desafio de chegar aos 90. Acho que não imaginavas a injúria de parar de fumar, trocar o uísque pelo suco de tomate e esquecer os papos-de-anjo e compotas que devoravas com os olhos fechados de prazer. Te olhando, às vezes, parece que não cabes no século 21...
Melhor remarcar em teu calendário aquela manhã de 9 de julho de 1980 e voltar à tua imortal felicidade ao lado dos artífices de teu tempo, Ciro, Baden, Tom, Elis, Otto, Drummond, Mário, Oswald, Rubem, teu Maria, Pixinga, Elizete, que ficar à mercê desses dias tão vazios de românticas irreverências e atrevidas ingenuidades. Esta semana podemos nos encontrar no Gibo para saborear um suculento spaghetti e um vinho italiano que só o Gilberto sabe escolher. Sem que teus médicos saibam, claro. Não sei se conseguirás, no decorrer dos 90, quando ela chegar, tratar a morte como tua mais nova namorada, do jeito que sempre proclamaste.
Pois é, meu amigo, decididamente não ficam bem ao teu olhar ainda verde-gaio as tão fortes marcas do tempo... Mesmo assim, seria tão bom poder te abraçar novamente e gozar de tua perene generosidade.
Um beijo carinhoso do teu eterno amigo Toquinho