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A companheira dos últimos tempos...


Meu querido Vinicius, se você estivesse entre nós faria 90 anos e imagino que seria um daqueles velhinhos sábios, simpáticos, amorosos... como a criança, o jovem, o homem que você foi. Aconteceram tantas coisas desde que você nos deixou e é incrível como você continua a fazer a ronda em minha vida, como aliás sempre fez, desde meus tempos de menina, apaixonada por seus livros, tiete que, como num conto de fadas, casou-se com o ídolo. Estou e estarei sempre em contato com sua poesia, sua música, seus amigos, sua família. Você deixou em nós que tivemos o privilégio de sua companhia um legado de afeto, amizade e amor que nos fez melhores do que éramos antes de conhecê-lo. Poucas pessoas tiveram a noção perfeita do que é amar o próximo como você e cada vez que se lança um olhar sobre sua obra paro pra pensar na falta que você faz. E agora este lançamento que, além de celebrar seus 90 anos, faz um passeio por sua música e poesia, e de quebra reúne depoimentos dos que o conheceram e o amaram. Isso nos ajuda a formar um mosaico multifacetado que mostra a força da sua personalidade. A música popular brasileira continua a nos encher de orgulho por sua riqueza e originalidade, mas a letra da canção deve tudo a você. Tem as letras AV (antes de Vinicius) e DV (depois de Vinicius). O vigor, o lirismo, a naturalidade e a profundidade com que você tratava os temas causam até hoje perplexidade, como se vê nessa coletânea que eu, com orgulho, produzi. É mais um modo de conviver, próxima e intensamente, com você. Não pude deixar de fora a valsa que você me dedicou, sua última gravação. Adoro quando diz: "E depois nós dois unidos/Como Eurídice e Orfeu/Fomos sendo conduzidos/Gilda e eu". Estou e estarei sempre com você a meu lado. Saravá, Vinicius!

Sua, Gilda

P.S.: Vivi muitas emoções ao seu lado mas lembro-me especialmente da Missa dos Trabalhadores em 1º de Maio de 1979 no Grande ABC, SP. Nosso amigo Samuel Weiner trouxe o recado do presidente do sindicato dos metalúrgicos, um jovem pernambucano, barbudo, de que o seu poema O operário em construção havia sido escolhido pelos operários para ser lido na missa e eles queriam muito que você lesse o poema. Poucas vezes senti você tão cheio de emoção e orgulho como naquela tarde quente, lendo sua poesia para a multidão! Saímos de lá com a alma lavada e... sabe o que aconteceu? Aquele rapaz barbudo é hoje nosso presidente.


[19/OUT/2003]


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