... E Miúcha relembra o amigo presente na infância

[19/OUT/2003]

Meu pai e Vinicius já eram amigos antes de eu nascer. Por isso não me lembro do dia em que conheci Vinicius; ele sempre esteve por ali. Sua presença se tornou uma constante em minha memória; as noites se transformavam em festa quando ele aparecia nas várias casas onde moramos pela vida afora, no Rio, em São Paulo ou em Roma, sempre com muitos e alegres amigos e com pelo menos um violão. E muita cantoria, muitos risos até de madrugada.

A criançada (somos sete irmãos) foi crescendo e, aos poucos, ganhando privilégios. Nessas noites mágicas podíamos ficar ouvindo tudo sentados na escada – só não podíamos fazer barulho. Aos poucos fomos admitidos na sala, no meio dos adultos. E, assim, a gente foi ouvindo Noel Rosa, Ismael Silva, Ari Barroso, Dorival Caymmi, Antonio Maria e Custódio Mesquita e até formamos um vocal para imitar as pastoras do Ataulfo Alves.

Vinicius teve a paciência e a gentileza de me ensinar alguns acordes no violão, com os quais eu conseguia acompanhar suas músicas. Meu violão se chamava Vinicius, antes mesmo de eu saber que o poeta seria duas vezes meu padrinho. Pois foi por sua obra e graça que me apresentei em público pela primeira vez, em Roma, com 15 anos.

O disco que acabei de gravar, Vinicius & Vinicius – Música e letra, retrata um pouco dessas histórias. Eu já dei vários presentes errados para Vinicius, como um vinho que ele gostava muito, sem saber que ele estava sem beber nessa época; um lindo boné branco, a cara dele, que não coube na sua cabeça... Mas acho que desse disco ele vai gostar!

Miúcha

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